Panificação caseira — por uma vida mais amadora
Não faço pão há algumas semanas para repensar/reorganizar a vida e parar de reclamar de falta de tempo. Nesse período, fiquei mais ansiosa, talvez por ter sobrado tempo, talvez porque eu esteja viciada em fazer pão, talvez porque só agora baixei a guarda e deixei os impactos da pandemia e do isolamento me abalarem…
Também tenho tentado entender as sutis (ou gigantes) diferenças entre a teoria e a realidade. Entender não é necessariamente a palavra certa, mas sentir que a teoria é um guia, uma referência, nunca a coisa em si. Mais uma vez cito a filósofa Viviane Mosé, que em um vídeo no seu canal no YouTube, A Civilização Quer Ganhar da Natureza – E Agora?, fala sobre um conto do escritor Jorge Luis Borges, onde um povo que gostava muito de mapas queria fazer o mapa perfeito – um mapa da cidade que tivesse o tamanho da cidade. Esse povo fez o mapa, mas ele não serviu para nada e foi inutilizado. Ou seja, um mapa serve para nos guiar pela cidade, mas não é a cidade em si, assim como a teoria em relação à vida.
Nessa trajetória de quatro anos como padeira amadora, busquei fazer o pão artesanal mais úmido possível, como manda a boa teoria. Até que desisti de levar isso tão a sério. E aí sim consegui pães mais gostosos, bonitos e vivos (por que não?) Não deixam de ser pães úmidos – considero as proporções no início do processo (na primeira hidratação) – mas dessa etapa em diante, decidi me relacionar com a massa. Também não é nada que eu tenha inventado, isso também faz parte da teoria e dos ensinamentos dos padeiros e padeiras mais experientes. A questão é que fazer pão precisa ser divertido, por isso é importante que seja natural, espontâneo, um tanto novo, um tanto velho, renascido/reinventado, com sabor de afeto, mesa farta, boa companhia ou solidão relaxante.
Contradição, dialética, multidões, fases… Esse material todo nos forma. Como podemos pensar e acreditar em algo e entrar em conflito com nós mesmos por sentir ou agir de forma que questiona esse pensamento? Porque existe um buraco entre a teoria e a vida (e porque a teoria, a vida e o buraco fazem parte de nós). Sem falar nas multidões de fungos, bactérias e células dos quais somos formados.
Esse texto pode ser considerado um desabafo, ou bate-papo com café sem pão. Estive fermentando, dando tempo à minha maturação. Mas, como em toda fermentação, esse tempo não pode passar do ponto. Para o escritor gastronômico Sandor Katz, “entre o fresco e o podre há um espaço criativo em que surgem os sabores mais instigantes”. E para o escritor Harold McGee, “O gosto pela deterioração parcial das coisas pode se tornar uma paixão, a aceitação do lado tosco da vida que se expressa melhor por meio de paradoxos.” Essa é a fermentação: do pão, da vida ou de nós mesmos.

Bruna Ribeiro atriz, jornalista e padeira amadora

