“Panificação caseira — por uma vida mais amadora
Para falar de amadorismo, ou melhor, para viver o amadorismo, é preciso um pouco de Manoel de Barros – “As coisas que não levam a nada têm grande importância”.
Acontece que a vida, a nossa sociedade, está muito profissional, muito técnica, e isso cansa. No livro Nietzsche Hoje, Viviane Mosé diz que “… o contemporâneo se caracteriza pela revolução tecnológica e pela interferência cada vez maior da técnica na vida…”
Comecemos, então, por desmistificar a palavra amadorismo, que muitas vezes é usada num sentido pejorativo para caracterizar algo sem qualidade. Na verdade, uma atividade amadora é aquela que é feita por amor. Enquanto a profissional é feita por dinheiro. Ambas têm o seu valor, não acha? Sem dinheiro, não se come, sem amor, não se vive de fato!
Foi assim que surgiu esta série. Da vontade de ousar, errar, recriar, “soltar a franga”. Das delícias do fracasso de Samuel Beckett à busca pela perfeição de Chad Robertson, minhas referências se misturam e se manifestam em cada pão que sai da panela de ferro – quase sempre em altíssima temperatura.
A curiosidade pela panificação veio durante a leitura do livro Cozinhar, de Michael Pollan. Nele, o autor fala sobre comida, cultura e outros aspectos humanos (e até microbiológicos) a partir dos quatro elementos do planeta. O pão ilustra o elemento ar. Para escrever esta parte do livro, ele se encontrou com vários padeiros que se aventuravam na recuperação de um pão mais próximo do original, sem os aditivos que a indústria criou para facilitar (e com isso modificar) a panificação.
A paixão de Michael e desses padeiros foi contagiante para mim. No meio da leitura, peguei uma bacia vermelha que tinha na cozinha, coloquei farinha branca, farinha integral e água (mais ou menos a mesma medida de cada) e deixei descoberta em temperatura ambiente. Não reconheci muito bem se a minha mistura tinha se tornado uma massa madre. Depois de duas semanas, parecia ter bolhas, mas muito sutis, talvez nem fossem bolhas.
Com esse levain, fiz meu primeiro pão de fermentação longa e natural – que foi um desastre. Usei uma receita deste livro do Michael Pollan, com farinha integral e 90% de hidratação (uma massa muito hidratada para uma iniciante como eu) e, como eu não tinha panela de ferro, usei uma forma comum. Resultado: o pão grudou de uma madeira irritante na forma, não cresceu, ficou pesado e com um sabor nem bom nem ruim.
Esse pão, que levou mais de duas semanas para ficar pronto, foi motivo de conversas, risos, estranhamentos e até sonhos (sonhei que tinha ganhado um dia de folga do trabalho para fazer meu pão). Também rendeu muitas outras tentativas, fracassos e sucessos que vou contar ao longo desta série… Façamos o que amamos, mesmo que não dê certo, mesmo que não seja o tempo todo.☺️

Bruna Ribeiro
Atriz, jornalista e padeira amadora

