O gênio dos ditos populares

Há muitos anos, ainda jovem, ouvia a frase que me divertia: “Eu se viro com dropes e gazeta esportiva”. Claro que o reflexivo devia ser “me” e não “se”. Mas, pureza gramatical à parte, o dito de um rapaz de origem humilde que conheci a esse temporevelava a resignação de quem, não podendo ter as coisas melhores da vida, contentava-se, em lugar de finos quitutes, com uns simples dropes açucarados; e, em vez de se deleitar no Teatro Municipal assistindo ao balé espanhol do Marquês de Cuevas, contentava-se com um simples passar de olhos pela Gazeta Esportiva com os resultados dos jogos da véspera. O dito me divertia. No entanto, hoje, décadas passadas, vejo que essa resignação é ruim. É preciso lutar, individual e coletivamente, por condições sempre melhores de vida, chupando dropes, mas batalhando por torta de amêndoas.

Hoje não aceito mais o que dizia meu avô paterno, um espanhol de fibra, lutou pelo seu rei na guerra do Marrocos, teve morte aparente no campo de batalha, chegou a ser amortalhado para baixar sete palmos à última morada, mas foi salvo do jazigo prematuro pela afeição zelosa do comandante. Não concordomais com o que meu avô dizia: “Que Dios nos dé mucho de lo malo porque poco nos toca de lo bueno”. Não, querido Facundo Montes Parra, queremos o bom sempre. Ou: “Tiempo de hambre no hay pán duro”. Não, seu Fagundes, em qualquer tempo temos que evitar o pão duro e procurar o pão quentinho, crocante por fora, tenro por dentro. Pão duro só para ralar, fazer farinha de rosca e depois com ela empanar o bife que fica à milanesa. E quem não pode? Que siga o conselho do Vandré: levante-se, vá à luta.

Isso tudo me vem à cabeça a respeito do velho tema, que sempre me ocupou, da sabedoria popular, do gênio do povo. Será mesmo que a cultura dos socialmente subalternos é rica como se costuma apregoar? Ou será que, ao contrário, essa cultura não é uma amarra que mantém o pobre preso à pobreza? Será que a cultura do povo ajuda-o a sair da sarjeta, onde mora e onde mendiga, para subir ao palácio e de lá exercer o poder?

Gramsci, ao contrário do que muita gente pensa e propaga sem ter lido uma linha sequer desse sofrido egenial italiano, considerava a cultura popular como um bolo indigesto feito com migalhas caídas da mesa dos poderosos. Quando a cultura não serve mais à dominação, os dominantes a abandonam e dela os subalternos se apropriam. O moleiro Menocchio, tal como narra Carlo Ginzburg em O Queijo e os Vermes, apropria-se de ideias heréticas caídas em desuso, filtra-as a partir de referenciais toscos, e as junta numa massa mal cozida, gerando uma teoria sobre a origem do mundo e do homem que acaba por leva-lo à condenação pela Inquisição. O notável Ginzburg, no prefácio a essa obra, designatal fenômeno migratório da cultura de um lado para o outro, de cima para baixo, de lá pra cá, de cá pra lá, como “circularidade cultural”, na mesma linha das pesquisas do russo Mikhail Bakhtin.

Ruy Barbosa, que hoje é esnobado por muito pedantismo acadêmico, já dizia na célebre Oração aos Moços, discurso de paraninfo da turma de 1920 dos formandos de Direito do Largo de São Francisco: “Embora o realismo dos adágios teime no contrário, tolerem-me o arrojo de afrontar uma vez a sabedoria dos provérbios”. Ruy, não podendo estar presente à solenidade, enviou sua oração para ser lida no ato solene. E nela afirmou estar errado o provérbio “longe da vista, longe do coração”, pois se sentia presente e não distante dos moços que celebravam a formatura. Nessa mesma peça oratória sentenciou: “O gênio dos anexins, aí, vai longe de andar certo. Esse prolóquio tem mais malícia que ciência, mais epigrama que justiça, mais engenho que filosofia”. Entre parênteses: “anexim” e “prolóquio”, hoje em desuso, equivalem a provérbio erefrão; “epigrama” é o dito malicioso, satírico. Pelo visto, o Águia não afinava com os anexins que o povão consagrava. Entre parênteses novamente: em artigo recente, que gerou intensa polêmica, Ruy Castro revelou que em 1919, aos 29 anos, no Centro Acadêmico 11 de Agosto da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, Oswald de Andrade, o grande poeta do modernismo brasileiro, discursou exaltando Ruy Barbosa. Isso em 1919! – três anos antes da Semana de Arte Moderna de 1922, que execrou Ruy, Bilac e outros “grandes” deantes. Como dizia o colega Artur Puxian, no Pátio dos Leões: “nesta vida tudo passa, até as telhas dos telhados passam”. Tudo passa. Tudo muda.

Por falar em poeta e em modernismo, outro papa de 22, Mário de Andrade, com seu talento proteiforme, fez ampla pesquisa sobre a cultura popular brasileira. Muita coisa importante, cantigas de roda, contos populares, cultura afro-brasileira, está em Mário, principalmente no seu livro Aspectos do Folclore Brasileiro, leitura obrigatória para quem ainda se preocupa com o mundo simbólico deste país em plena era da globalização.

Meu orientador no doutorado da USP em Sociologia do Romance, o saudoso Rui Coelho, doutor com H maiúscula como arrotava certa pérola da imbecilidade em tempos idos, dizia ser impossível encontrar uma pura manifestação cultural autóctone. Ele gostava de referir uma pesquisa da Unesco de que participou no meio da África à busca dessa pureza cultural. Pé ante pé, o seleto grupo de que fazia parte acampou próximo ao terreiro em que uma tribo africana ia fazer sua festa celebratória anual. Gravador ligado, um daqueles trambolhos da primeira metade do século vinte, a respiração presa, a festa tem início. O que se ouve? Juro que o doutor Rui disse: era o Messias, isso mesmo, o Messias de Händel!

Sérgio Castanho é pesquisador e professor da História da Educação na Unicamp e titular do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas e da Academia Campinense de Letras

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