Entre 2009 e 2011, Tunísia, Egito, Líbia, Síria e Islândia foram palco de insurgências políticas que surpreenderam o mundo. As manifestações de semelhante natureza, desde então, proliferam-se, no entanto, pode-se dizer que havia características comuns a todas elas? A começar pela formada organização e velocidade no levante destes eventos, haveria fundamentadas suspeitas de que a comunicação em rede, estabelecida em espaços virtuais, fora elemento determinante para o sucesso das mobilizações, ao lado de tantos outros fatos borbulhantes nos acontecimentos históricos.Dessa forma, supõe-se que ao movimento das transformações comunicacionais experienciadas pela sociedade, em virtude da evolução tecnológica, pertenciam igualmente uma disposição para renovados modos de conexão, na medida em que comunidades virtuais interconectadas possibilitaram a diferentes grupos e indivíduos associarem-se em fluídas matrizes de resistência, ampliando vozes, discursos, reivindicações, palavras de ordem, deixando de constituir massas silenciosas e oprimidas.O desenvolvimento de tecnologias capazes de realizar a interconexão global de pessoas, instituições e nações foi impulsionado, em larga medida, por interesses mercadológicos e necessidades burocrático-administrativas. Ao depender de interconexões mais velozes e, em maiores distâncias, para otimizar seus processos de produção e circulação de valores, a face complementar desse projeto de supressão de barreiras – geográficas, econômicas e sociais – teve como efeito colateral, no entanto, a diminuição dos entrepostos que dificultavam a organização política livre de mediações. Assim, se essa abertura de novos canais de comunicação potencializou a vazão de informações, possibilitou ao mesmo tempo que grupos e organizações ampliassem seu espectro de difusão e essa abertura alimentou extraordinários ciclos de ações concretas e debates, a ocupar as ruas, praças, sites e redes sociais do globo.
Em junho de 2013, o Brasil parou para se juntar ou acompanhar as multidões que foram para as ruas, a partir da reivindicação do passe livre, iniciada na cidade de São Paulo. Milhões de brasileiros foram às ruas em mais de 350 cidades do país, pleiteando o respeito à sua cidadania, uma vez que em seus protestos deixavam claro que direitos valem muito mais que alguns centavos, em frases de ordem como: “não é só pelos 20 centavos”. Assim, as reivindicações se estenderam além da questão do transporte público: a ocasião trouxe à tona cobranças pela qualidade dos serviços de educação, saúde, segurança, direitos humanos e, mesmo na mobilização contra a realização da Copa do Mundo no país, para que os gastos públicos fossem justos e transparentes. Essas manifestações não eram lideradas por grupos ou partidos políticos, embora estes compusessem parte dos movimentos, e ainda assim preservavam alguma coerência de reivindicação e, o mais curioso, uma organicidade. Nesse contexto, o desenvolvimento tecnológico alcançou importância decisiva em relação aos desdobramentos dos lances jogados na sociedade em processo de digitalização. Agremiações independentes se organizam, produzem e circulam informações a partir de outra lógica comunicativa, fundamentada na estruturação complexa de esquemas não centralizados de difusão de informações e conteúdos. Articulação aparentemente exitosa, dada a atuação que tem alcançado nas disputas argumentativas envoltas às insurgências recentes.
As manifestações que marcaram o mês de junho de 2013 ocuparam seu espaço na história da política brasileira e, já nos anos subsequentes,sem grandes esforços se pode notar a intensificação dos debates em torno de questões de natureza coletiva, as quais se pluralizaram em temáticas e ocorrências desde o período. As formas de participação social, nos dias atuais, desse modo, aparentemente apresentam características inauditas atreladas à expansão e realização de atividades coletivas em meios digitais, cuja relativa novidade talvez ainda reserve pequenas margens para atuação livre de mediação institucional.
Por isso, as redes digitais demonstram o enorme potencial transformador da tecnologia em relação à vida pública, operando como catalizadoras da organização e manifestação das demandas políticas encontradas nas sociedades, por vezes abafadas pela dominação do discurso burocrático e dos interesses mercadológicos.Em contraposição à aparente normalidade social harmônica oficialmente propagada, a comunicação imediata entre cidadãos, supostamente expõe o caráter dinâmico e divergente da convivência humana, e atribui poder aos cidadãos comuns para reivindicar a participação efetiva na condução dos processos concernentes à vida pública. Resta saber, talvez, até que ponto os espaços virtuais e a comunicação em redes manterão a fluidez e a liberdade necessárias à manutenção da convivência participativa e se, nesses moldes, conseguirão levar adiante a forma democrática de convivência ou o processo radical de reestabelecimento da democracia, possivelmente assentados pelos tempos vindouros sobre a disposição para a coletividade, a despeito da burocratização e do controle da participação social.

Marco Aurélio Ferreira é doutor em Semiótica pela PUC-SP, reitor do Centro Universitário UniFAE, diretor de Comunicação da Associação Brasileira de Cibercultura (ABCIBER).

