A Escola e o Tempo

Vivemos em uma sociedade frente a qual quase tudo tem conotação financeira e econômica. Pouco do que produzimos escapa a este olhar mercantil, a esta visão mercadológica. Mesmo a Arte tem visão de mercado. Propusemo-nos a entender e suscitar questões que nos façam questionar o tempo escolar.

A questão do tempo é bíblica “Há tempo de plantar, há tempo de colher…” (Eclesiastes). Será este o nosso momento de colheita? Será este o momento em que estamos colhendo como educadores as mazelas de um passado não muito distante onde o embate entre a técnica e o político fazia-se presente?

O tempo escolar apresenta-se como um elemento curricular e ordenador de fazeres, sendo assim, necessário se faz pensar na escola como lócus de subjetividades onde o tempo cronológico esbarra e funde-se com o “tempo de ser criança”.  As rupturas e permanências; construções e desconstruções consistem em um mote para a nossa existência e orientações de condutas. Permite-nos enxergar os aspectos subjetivos que respaldam e alicerçam o trabalho docente. Há que permanecer um tempo para a escuta, para o sentir e para o existir.

O momento de grande ‘negacionismo’ da ciência apavora quem caminha olhando para o futuro. O caminho da discussão passará pelo viés do tempo curricular. Aquele que não se esgota quando as aulas terminam. E o ensino remoto tem mostrado esta faceta do trabalho pedagógico, entre atendimentos, planejamentos, contatos, aulas híbridas e afins. Não há como fazer e pensar educação sem vistas ao futuro próximo.

Nesta seara, refletir o tempo sob a égide curricular demanda perceber que aulas organizadas sem o senso crítico, sem o respaldo da ciência e sem o aprofundamento nas questões sociais prementes, não contempla a demanda deste novo tempo pós pandemia. Os alunos aprendem em ritmos diferentes, remota ou presencialmente. Isto nos faz refletir sobre o que temos aprendido sobre a escola em tempos tão áridos. Seria papel da escola e de todos nós nutrir esperança e expectativas positivas para o amanhã? Ou aproveitar o pouco tempo que temos com os alunos para tirá-los de uma situação de não saber o currículo formal em detrimento a tantos conhecimentos adquiridos em outros espaços e tempos?

Luiz Carlos Freitas discute a questão do tempo escolar em “Crítica da organização do trabalho de Didática”, tecendo uma ampla análise em que nos faz parar para refletirmos sobre a questão tempo/espaço/escola.

Muito frequentemente vemos o nosso tempo reduzido, massacrado por um currículo gradeado que sutilmente nos empurra serviço e o professor deve considerar o currículo vivido. Qual o professor que não deixou de lado seus compromissos sociais e familiares corrigindo provas, trabalhos, ou talvez fazendo o seu Plano de Curso, ou seu relatório?

Freitas leva a lidar com este assunto com serenidade dando clareza que para pensar o trabalho pedagógico é necessário ver as condições reais nas quais ele se concretiza. Evidentemente não podemos discutir a categoria tempo sem entender que será através dela que fazemos a organização de nosso trabalho, organizamos a nossa rotina.

Dividimos o conteúdo, organizamos as avaliações e seus diversos instrumentos em torno de cinquenta minutos ou mais. Será neste tempo (hora/aula) e neste espaço (escola) que estabelecemos relações de amizades, diga-se de passagem, aligeirada às vezes… “A gente conversa mais tarde, estou sem tempo, vamos marcar um café…”

Não há como pensar em um Currículo vivo sem considerar a formação total do ser. Ah, mas isto demanda tempo. Ler nas entrelinhas e deslocar o nosso olhar do ingênuo para o crítico é um exercício necessário e permanente. O tempo entendido como uma categoria a ser refletida e estudada, incide na percepção de que fazemos muito mais além do tempo real para o qual somos chamados a atuar. Importante analisar o que nos permitimos e sobre o que nos é exigido formal e informalmente.

Enfim, a atual conjuntura requer empreendimentos rápidos, maduros, seguros, decisões a serem tomadas em pouco tempo. Certamente para nós educadores, esta questão perpassa caminhos que nos farão continuar a discussão.

Warlen Fernandes Soares é pedagoga, especialista em Psicopedagogia (Puc-Campinas) e em Educação Especial (Unisal), mestre em Educação (Puc-Campinas) e professora na rede municipal de ensino.

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