A Creuza

JOÃO BATISTA GREGÓRIO
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Parte Final

Ainda sobre a Creuza, seus pais morreram no mesmo dia…
Era um domingo de feira e Dona Delfina acabara de vender a última galinha, quando caiu aquele toró de arrombar riacho. A Feira era no largo da estação e como eles moravam num bairro próximo, o Augusto Caparrão resolveu voltar para casa, debaixo da tempestade, contrariando a esposa que morria de medo de raios e trovões.
A cada trovoada mais forte, o burro dava um pulo, empinando a carroça. A mulher, apavorada, punha-se a suplicar: _ Me ajude, Santa Bárbra! E a amaldiçoar o marido: _ Mardito, lazarento, freia o burro que eu quero apiá!
Ao chegarem à baixada da Vila Operária, viram que o rio estava vazando por cima da ponte. O Augusto, teimoso como todo português antigo, açoitou, fortemente, o animal, obrigando-o a enfrentar a força das águas.
Dona Delfina ainda tentou arrancar as rédeas das mãos do marido, mas levou uma forte cotovelada na boca. Literalmente, deram com o “burro n’água”. A correnteza fez tombar a carroça, bem no meio da ponte e quebraram-se os varais que prendiam o burro. Livre do peso, o animal conseguiu safar-se, relinchando morro acima, como doido.
As pessoas que assistiam à enchente, contam que a mãe da Creuzinha ficou presa, por alguns segundos, no madeiramento da ponte, gritando para os que tentavam salvá-los: _ Deixa o Augusto rodá e acóde eu!!!
De nada valeu aquele último apelo egoístico, que demonstrava o grande amor que tinha pelo marido. Horas mais tarde, os dois foram encontrados e velados na mesma noite. Como a sala de dentro era muito pequena, ficaram naquela varanda, onde a vó Nicota mascava seu fumo e o papagaio cantava seus hinos.
A voz da velha portuguesa era muito fina e estridente. Lembro-me, direitinho, que durante o velório, enquanto gritava: _ Delfiiiiina, Ah, minha fiiiiilha, o que fizeram contiiiigo! _ os perus, lá no galinheiro respondiam, em bando: “gru-gru-gru-gru…” A gente não sabia se ria ou se chorava!
Cá entre nós, acho que a Creuza até ficou aliviada com a morte dos pais. Internou a avó no asilo e as crianças menores na creche. De casa, levou apenas o papagaio, indo morar e trabalhar no bar do Euzébio.
O Euzébio tinha uma clientela fixa, fiel a suas frituras deliciosas. Filés de tilapia, leitoas à passarinho, moelas na páprica picante e o carro-chefe, que era o famoso torresmo pururuca, grande e carnudo, cuja receita ele guardava a sete chaves. No passado, quando o bar era bem maior, sua mãe cuidava das frituras, enquanto ele ficava no balcão.
Era filho único, de mãe solteira e Dona Francisca não queria que o filho se casasse, pois tinha medo de ficar sozinha na vida. Dizem que, para “apagar o fogo” do rapaz, ela misturava salitre na comida e bebida do filho. A estratégia parece que deu certo, pois o Euzébio nunca namorou ou saiu com mulher alguma. Nem com homem… Era completamente assexuado.
Ele e a Creuza deram-se muito bem. Ela convenceu-o a alugar uma daquelas máquinas de músicas e a construir três “reservados” no fundo do bar. O Negócio prosperou tanto que abriram uma filial, o “Euzébio II”, na saída da cidade e a clientela dobrou.
Certa noite, enquanto guardava umas caixas de cerveja, o Euzébio teve um mal súbito e foi levado às pressas, para o hospital. Durou poucos dias, mas como prova de reconhecimento, antes de morrer, resolveu-se a casar com a Creuza e, em seu leito de morte, foi oficializado o ato civil.
A amiga herdou não somente os dois bares, mas também, algumas casas e terrenos que o Eusébio possuía e que ninguém sabia. Dizem que, agonizante, ainda teve tempo de passar para a Creuza a receita de seus famosos torresmos. Ela, porém, vendo-se rica, nunca mais quis saber de fritar torresmos.
Vendeu o bar da cidade e reformou o “Euzébio II”, rebatizando-o de “Blue Moon”. No novo estabelecimento, que se tornou no “point” da população masculina, não se servia mais tilapias grelhadas _ apenas piranhas perfumadas…
Se vocês pensam que vou ensinar o famoso torresmo do Euzébio, esperem sentados, pois que eu não sei…

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