Preconceito

CLINEIDA JUNQUEIRA JACOMINI
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Para minha querida amiga Maria Cecilia Brícoli, que se foi dessa vida para se encontrar com seu amado Acyr!

Já escrevi sobre preconceitos e volto ao tema! Um dia num passado nem muito distante, o leite acidificou nos latões, eufemismo para azedou mesmo. Dezenas de litros! O que fazer? Pensei em fazer o delicioso requeijão de cortar, bem mineiro. Procurei em receitas de minha avó, nas quais se mediam os ingredientes em pratos! Livros antigos. E os ovos, em média, 10 e 12. Tempo bom, de fartura, mas muito trabalho, sem as máquinas modernas para ajudar na lida diária. Aí minha amiga Maria Cecília chegou com o Acyr para uma visita. E que delícia! A chegada dela e sua sabedoria rural! Me ensinou, ajudou e saiu o bom requeijão de um leite que, sem a técnica, seria jogado fora. Fora, não, que aqui em casa não se faz isso, nada é desperdiçado e tudo se aproveita nesse lavoisierado minerim e rural. Vai para os gatos, cachorros, leitões… Aí fiquei pensando num conceito que aplicava em sociologia sobre cultura: é o amontoado de noções repassados de geração em geração para nos facilitar a vida. O exemplo clássico era a fabricação de cerveja e a manufatura de pães. Sabemos pelo erro-acerto-erro-acerto dos antigos que ambos os produtos carecem de fermentação, natural ou conseguida artificialmente. O homem das cavernas deve ter deixado cair (ia escrever cuspido) gotas de saliva inadvertidamente em um líquido, fruta ou grão e dali surgiu uma bebida fermentada muito boa! E o que é melhor: o deixava mais leve, mais alegre e feliz! Daí para frente tudo foi se aperfeiçoando e hoje já sabemos como conseguir produtos mais elaborados, mais sofisticados, sem passar pelos ensaios e erros empíricos do passado. Pois é, escrevi tudo isso para comentar sobre um curso (workshop, mais modernoso!) que me foi apresentado, nem me lembro onde. A doutora falava sobre coisas, objetos, fatos e itens do passado que muitos hoje não conhecem, nem ouviram falar! É o caso da fabricação de queijos, embutidos, pães e broas, quitandas, bordados, benzeduras, plantas curativas, unguentos, sinapismos, aplicação de ventosas etc etc. Lembro-me de meu pai colocando um algodão aceso, embebido que fora em álcool, num copo e virando o tal na minha barriga! Que medo passei! Mas, o vácuo ali conseguido, segurou o algodão no alto do copo e não me fez mal alguma; não me queimou e só me tirou os gases por demais incômodos! Minha avó fazia farinha de milho, preparando os grãos desde descascar sua palha, socá-lo, até varrê-lo num tacho raso conseguindo os beijus amarelos deliciosos. A outra avó plantava a mandioca, desenterrava as raízes na época certa, moía, colocava n’água, quando o polvilho devidamente sedimentado ficava no fundo e era secado ao sol e vendido na antiga Cascavel, hoje Aguaí city. Quanta trabalheira! Hoje tudo é industrializado, com máquinas fazendeiras de milagres e facilitadoras do trabalho que era essencialmente humano.
Sou uma felizarda! Conheço o passado; curti muitas coisas dele; vivo muito bem o presente, nada da modernidade me fazendo frente e espero confiante no futuro que virá! Ou não! Aplicava e ainda hoje o faço os verbos em A: Amar, ajudar, aceitar… e os em R: Respeitar, recordar, reciclar…
Ninguém hoje conhece ou sequer ouviu falar de silhão, combinação, espartilho, cuietê, losna, artemísia, macela… nem viu, às margens das estradas poeirentas, as touceiras de erva cidreira; nem dentro das jardineiras, os homens de guarda-pó e chapéus; e assim tantos outros termos, objetos e fatos do passado, nem tão distante assim! Em compensação quantos de minha geração, ainda atuante e viva não sabem o que é loft, chrush, spoiler, hipster, podcast.

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