O meu amigo Quinzito

Aristóteles de Estagira, o homem que ensinou a Humanidade a pensar, colocou a amizade entre os mais elevados dos sentimentos do Homem. E a Mitologia — raiz de toda a Cultura — traz a narrativa de sólidas amizades, sendo a mais emblemática a que unia Aquiles a Pátroclo. Também a Literatura tratou da amizade: Para ficarmos com a da Língua Portuguesa, em “A Cidade E As Serras”, Eça de Queirós mostra Zé Fernandes como o amigo leal e o confidente de Jacinto de Tormes… assim pois, falar da amizade e de um amigo, é algo sempre grato a uma pessoa medianamente bem formada.

Eu fui amigo do Dr. Joaquim Cândido de Oliveira Neto ao longo de muitos e muitos anos, sendo que a nossa amizade ultrapassava as nossas próprias individualidades para adentrar no campo familiar, uma vez que os nossos bisavós, Joaquim José de Oliveira e Gabriel José Ferreira, haviam sido amigos. Uma geração depois, meu avô Waldemar Junqueira Ferreira e o Sr. Joaquim Cândido de Oliveira Filho, o “Tinhão”, pai de Joaquim Cândido, eram por igual amigos e companheiros na Política, ambos partidários da “União Democrática Nacional”, a U.D.N. de gloriosa memória…

Um detalhe curioso: o apelido familiar de Joaquim Cândido, “Quinzito”, foi herdado do seu avô, o Coronel Joaquim Cândido de Oliveira, mais conhecido como o “Quinzito do Jahú”, respeitado chefe político local. Esclarece o escritor sanjoanense Nelson Palma Travassos que, finda a monarquia no Brasil, os nomes das propriedades rurais, agregados aos dos seus donos, substituíram os títulos nobiliárquicos do Império.

Joaquim Cândido era alguns anos mais velho do que eu, circunstância que não impediu, mas antes favoreceu, que tivéssemos um ótimo relacionamento. E este relacionamento teve como base, é óbvio, o fato de cultivarmos, ambos, os mesmos valores. Sem esta identidade axiológica, nenhuma amizade pode prosperar… ambos éramos bacharéis em Direito, e ambos fomos professores universitários, dado que ainda mais nos aproximou.

Posso sintetizar a personalidade e a maneira de ser do meu amigo Quinzito dizendo, de maneira concisa, que ele era um protótipo da Aristocracia Rural Brasileira, muito bem estudada por Oliveira Viana, e também abordada por Plínio Salgado e pelo já citado Nelson Palma Travassos. Nesta época de dolorosa incultura, de triunfo da ignorância crassa — que chega a se alçar à Presidência da República — falar em “Aristocracia” e em “Aristocratas” soa mal, é cousa antipática… o preconceito não se sustenta. Etimologicamente, “Aristocracia” quer dizer “Governo dos Melhores.” E “Aristocrata” significa “o melhor.” Muitas coisas resultam da leitura cuidadosa de Werner Jaeger, em seu clássico “Paidéia – A Formação do Homem Grego.” E uma delas é esta: O papel fundamental da Aristocracia, é o de servir de modelo para as demais classes sociais…

Quinzito era um aristocrata. E por isto mesmo, era um homem extremamente educado, afável, simples no trato, e muito gentil para com as pessoas humildes. Nunca foi prepotente. Deste último dado eu posso dar o meu testemunho pessoal, pois o vi conversando com os seus empregados rurais em Água Boa, Mato Grosso. E ele era também um estudioso e um autêntico intelectual. Quero dizer que era um genuíno intelectual, justamente por nunca ter tido a pretensão de ser um intelectual. Minha assertiva pode parecer contraditória, mas não é.

Em matéria de Política, Joaquim Cândido era por excelência um liberal. Isto quer dizer que era muitíssimo tolerante: — convivia bem comigo, um integralista, e convivia bem com o meu primo o Deputado Paulo Teixeira Ferreira, lá em casa o “Paulo do Wolgran”, um marxista. Sucede que a aludida tolerância jamais significou ausência de opiniões próprias: Quinzito as tinha, bem definidas e sólidas.

Liberal embora, Joaquim Cândido, na juventude, e especificamente quando estudante em Campinas, teve contato com o Integralismo, frequentando as reuniões do “Movimento Águia Branca”, formado pela “Confederação dos Centros Culturais do Brasil”, fundada por Plinio Salgado.

É este contato juvenil com o Integralismo que me leva a encerrar este artigo, que é um “epitaphios”, com os versos de Plinio Salgado que finalizam o “Código de Ética do Estudante.” Pois que tais versos bem retratam a personalidade do meu querido  Quinzito:

“Se és incapaz de sonhar, nasceste velho; se os teus sonhos te impedem de agir segundo a realidade, nasceste inútil. Se, porém, és capaz de transformar sonhos em realidades, e de tocar as realidades que encontras com a luz dos teus sonhos, então tu serás grande na tua Pátria, e a tua Pátria será grande em ti!”

 Acacio Vaz de Lima Filho é advogado e professor universitário. Dedica este artigo à Vera, ao Quim, à Bel e a todos os colaboradores do Quinzito em O MUNICIPIO

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