‘Meu filho, posso ler?’

Ao ser chamado para escrever, lembrei-me dos dias em que o doutor entrava na Redação e dizia: “Meu filho, posso ler?”. A pergunta era feita quando no outro dia ía para a banca alguma notícia das fundamentais bandeiras defendidas pelo jornal.

Acompanhei várias delas. A que mais me marcou de estar perto do Joaquim foi a do setor aeronáutico. A chegada da Unesp já estava sacramentada. A luta passou então a ser por fábricas de aviões. Era algo que fascinava o doutor.

Os pedidos para ler mostravam a ansiedade de quem realmente queria o bem de São João. Ele queria ver antes o que o repórter dele ía levar ao leitor no outro dia. Lembro-me do brilho no olhar dele quando via que um avião novo era produzido. Era um orgulho verdadeiro ao ver a cidade se desenvolver e a gente conseguir, juntos, escrever a história.

Digo juntos, pois o Joaquim nunca deixou de participar. Era canetada no texto, era pergunta sobre ter mais alguma novidade. Ele queria e com certeza quer que São João continue dando certo.

Escrever para O MUNICIPIO foi meu sonho antes de entrar na faculdade e pude realizá-lo logo no 1º ano do curso. Conheci o doutor no meu primeiro dia de jornal, mas só depois de já ter começado a trabalhar.

Setembro de 2012, debate de candidatos a prefeito. O jornalista Reinaldo Benedetti, também colaborador no jornal, me colocou para fazer perguntas para os postulantes da época. Terminado o debate, fui até a redação e logo vi o doutor. “Esse é o nosso Franco?”, perguntou ao Reinaldo. Com a resposta positiva, o Joaquim emendou: “Seja muito feliz por aqui, estamos felizes que você está com a gente!”. Todo o medo de conhecer o dono do jornal se foi e já o admirei de cara.

E como fui feliz no jornal. Sempre estive feliz de realizar meu sonho diariamente e com ele por perto. Ele me formou de estagiário a editor-chefe nos anos que estive na redação do O MUNICIPIO.

O doutor foi até no meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) e ficou feliz quando soube que deu tudo certo. Senti dele, desde o início de minha jornada no jornal, em 2012, confiança.

A última vez que vi o Joaquim foi quando eu deixei o jornal e São João para outro desafio. Isso aconteceu no dia 31 de janeiro de 2020. Exatamente um ano antes dele começar a nos olhar lá de cima. Se no começo ele disse estar feliz por eu chegar ao time, na última vez disse estar orgulhoso do passo a mais a ser dado na carreira. E o passo foi dado com a formação que tive junto a ele.

Perder o Joaquim é perder o cara que sempre esteve ao lado ajudando a me tornar não só um jornalista melhor, mas também uma pessoa melhor. Ver a gana dele por algo, é querer ter a mesma vontade de idealizar situações em nossas próprias vidas para realizá-las. Só tenho a agradecer a esse homem fantástico, pois ele sonha junto com quem quer que ele esteja presente. E ele vai continuar a sonhar.

Só que agora a caneta não é mais vermelha. A cor agora é azul, fazendo a gente se lembrar que a vida é muito mais do que o dia a dia. A vida é sonhar por algo a mais e ir atrás. Assim como ele sempre fez.

Se você falava “meu filho”, só posso te agradecer, meu pai.

Franco Junior

é jornalista e amigo

[email protected]

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