Era o ano de 1998. A internet estava engatinhando, o telefone celular ainda era o tijolão. Nos EUA e Europa, especialistas bolavam a concepção da mídia de rede, como a TV interativa, combinando televisão e internet. E os jornais do interior, sensíveis a essas novas tendências, queriam rejuvenescer a sua face impressa, da mesma forma com que o ser humano adota a cosmética para disfarçar os anos.
Eis que recebo um telefonema de São João da Boa Vista convidando para visitar O MUNICIPIO. Eu conhecia a realidade de jornais de todos os perfis, mas não tinha noção da rica experiência que me aguardava após conhecer na intimidade a redação de um jornal de qualidade e dignidade exemplares para o jornalismo regional brasileiro.
Sem saber a surpresa que me aguardava, atravessei a avenida Dona Gertrudes observando o ritmo peculiar da cidade, um misto de provincianismo no bom sentido com ares de centro regional emergente. Uma reserva no hotel Giordano havia sido feita, mas preferi ir direto pro jornal.
Entrei no singelo prédio à rua Irmã Caritas e dei de cara com o doutor Joaquim Cândido de Oliveira Neto passando a caneta vermelha na edição do dia em solene reunião de pauta. Era uma quarta-feira, a edição estava fresca sobre a mesa, e ele fazia apontamentos de diversas melhorias que poderiam ou deveriam ter sido feitas, ao mesmo tempo em que antecipava temas palpitantes para o jornal do sábado. O café na garrafa era distribuído em copinhos. Os jornalistas, desconfiados, olhavam o jornalista consultor que viera ali sabe-se lá com que autoridade e para quê. Doutor Joaquim, ao contrário, parecia seguro: queria só melhorar o jornal.
Evitei emitir juízos conclusivos apressados sobre o jornal. Queria deixar os colegas à vontade, me apresentar com clareza e conhecer mais a fundo as intenções do proprietário. Mas doutor Joaquim parecia ter pressa, pedia ideias, apontava erros e perguntava o que eu achava disso e daquilo, inclusive sobre o andamento da própria reunião, se esta poderia ser em menos tempo ou organizada de jeito diferente. Mostrava-se inquieto com a rotina. Queria mudanças.
Observei a coleção de exemplares antigos arquivados em hastes, como nas melhores redações. Era um sinal de que se respirava ali o jornalismo feito com paixão e de que doutor Joaquim, mais que dono e diretor, era principalmente uma espécie de avalista e curador do negócio. Demonstrava saber exatamente o peso da dimensão e responsabilidade perante a comunidade de manter viva a chama do jornal.
Rapidamente fui cativado pelo cuidado com que ele e a sua equipe cultivavam a arte de fazer jornal voltado aos interesses coletivos. Partimos rapidamente para um novo layout e revisão de conceitos de reportagem e fechamento. Em algumas semanas, o jornal saiu com novo visual, exceção apenas do logotipo no alto da primeira página, que continuou da mesma forma, como até hoje, composto sem o acento na palavra Municipio, uma licença gramatical que doutor Joaquim fazia questão de conceder em respeito à história e aos fundadores do veículo do começo do século 20.
Em seu primeiro número, a 3/3/1906, o jornal declarou, sob o título “O nosso modo de proceder” que assumia “o propósito” de ser “imparcial e independente”. Doutor Joaquim perseguia esse ideal, e eu estava ali para auxiliar a recriação do jornal, um novo modelo, projetado ao novo século.
O projeto correu rápido, devido ao entusiasmo que contagiava a redação. Eu possuía a expertise recente de ter dirigido o Correio Popular, de Campinas, com mais de uma centena de jornalistas e colaboradores. Mas mudar O Municipio, diante das expectativas jornalisticamente elevadas do doutor Joaquim, confesso ter sido uma empreitada igualmente desafiadora. Em entrevista a Francisco Arten (matéria sob o título “Jornal faz mudança inédita na cidade”, 25/4/1998), expressei a delicadeza de romper paradigmas numa cultura tão arraigada que se desabrochava para o novo: “O Municipio se pautou, ao longo de praticamente um século, de princípios éticos afinados com o sentimento dos leitores e da cidade. Inovar sobre um veículo de tanta tradição é mais difícil do que começar do zero. Esse está sendo o grande desafio”.
Doutor Joaquim deve ter gostado dos pitacos da consultoria, porque me chamou muitas outras vezes para conversar com o pessoal e promover afinações sutis no dia a dia do jornal. Ao longo dessas duas décadas, foram inúmeras as visitas de trabalho. Fizemos pelo menos duas outras grandes reformas gráficas e editoriais, além da reengenharia no site. Na mudança mais recente, ele teve o desejo de marcar o cabeçalho com a epígrafe em letras vermelhas “A serviço de São João desde 1906”, uma justa homenagem a um dos raros jornais que circulam sem interrupção há mais de um século (apenas duas dezenas em todo o País).
Sempre que contornava o Theatro Municipal em direção ao jornal, me vinha a boa expectativa de um bate-papo gostoso na redação, o mesmo café e a inquieta busca pela qualidade do seu patrocinador. Em sua sala simples e ao mesmo tempo elegante, o circunspecto doutor Joaquim estava sempre a postos à espera de novidades para o jornal. Formal e ao mesmo tempo cordial, rodeado por vasta literatura jurídica, orientava os jornalistas com um olho no retrovisor da edição passada e outro à frente rumo à edição em ebulição.
Procurava se inspirar nos publishers que admirava, o que o levou a estudar a obra de Matias Molina Os melhores jornais do mundo (Ed. Globo). Ele se sentia, com justiça, parte dessa epopeia que levou o filósofo alemão W. F. Hegel a dizer, há dois séculos, que a leitura dos jornais pela manhã é “a oração do homem moderno”. As manhãs de quarta-feira e sábado do doutor Joaquim eram sagradas.
Doutor Joaquim parecia não envelhecer, a exemplo do jornal que amava e que soube adaptar à travessia do tempo. A sensação é de que, lá no céu, continuará a dar as suas canetadas.

Wilson Marini é jornalista
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