
Disse o escritor africano Amadou HampâtéBâa: “Na África, quando um ancião morre, é como se uma biblioteca se incendiasse”. Considerando esta analogia, creio que tenhamos perdido o mais respeitável acervo literário de São João da Boa Vista, no último dia 29: a professora Maria Inês de Araújo Prado. Em que pesem as restrições provocadas pela pandemia, causou-me estranheza a ausência de autoridades da Educação em seu funeral, eis que se tratava de uma sumidade da Língua Portuguesa, com passagem por diversas instituições de ensino que, na ocasião, não vi representadas.
São da lavra de Maria Inês variados métodos argumentativos até hoje aplicados em sala de aula para que se conceba uma boa redação. Um deles é o das “ideias principais”: basicamente, consiste em separar, num campo da folha de rascunho (ou da tela), o mínimo de 15 palavras soltas sobre o tema a ser tratado. Ensinava a professora que “concatenar essas ideias principais, de forma concisa, rumo a um argumento lógico, é meio caminho andado para bem se expressar”.
Expressão: grande incógnita da era digital. Há quem creia que seja possível se expressar sem o domínio da técnica. Maria Inês sacramentava que não. Coopera para este entendimento o fato de que há dois tipos de analfabetismo: o material, caracterizado pela simples desgraça de não se saber ler e escrever, e o funcional. Este último acomete aqueles que, mesmo conhecedores da teoria e da prática da leitura e da escrita (ainda que de forma rudimentar), não conseguem instrumentalizar o conhecimento. Portanto, não estão aptos à formulação de pensamentos lógicos, interligados e objetivos.
Este que vos escreve seria um analfabeto funcional caso, naquela primeira segunda-feira letiva de 1993, não tivesse entrado pela porta do quinto ano a professora Maria Inês de Araújo Prado. Aula de Redação! Abertura do calendário escolar. Muitos esperavam, como de costume, alguma fanfarronice do tipo: “Minhas férias na casa de vovó”. Não! Maria Inês abriu sua pasta de materiais didáticos e colocou, nas mãos daquela criançada recém-saída das fraldas, cópias de um artigo do Estadão sobre sexualidade na adolescência. Frio na espinha! Circulando entre as carteiras, ela debulhou o assunto com uma categoria ímpar.
Citou autores dos quais nunca havíamos ouvido falar. Pediu que alguns lessem trechos em voz alta. Corrigiu a pronúncia. Melhorou a impostação. Num lapso de minutos, a turma rompia a bolha da infância e passava a dominar a diferença entre um editorial e um artigo de opinião. Introdução, argumento, conclusão, temperados com coesão e coerência. A luz da vida adulta começava a brilhar.
Foi na primeira aula de Maria Inês que nasci como jornalista. Ela foi a única pessoa, dentre os docentes que tive, a acreditar que era possível transformar meu gosto em ofício. Não foram poucas as vezes em que, literalmente, segurou minha mão e fez a caneta deslizar para concluir parágrafos que cada vez ganhavam mais vida, mais conteúdo, mais referências. Cobrava de mim leituras periódicas. Perguntava o que eu havia achado dos jornais de domingo, na esperança de que eu tivesse lido, pelo menos, a Folha e o Estado.
Minhas respostas se tornaram afirmativas com frequência e intensidade. Antes mesmo do final daquele ano, um moleque de 12 anos e uma catedrática com mais de 50 pareciam tratar, de igual para igual, sobre ocorrências políticas, exposições de arte, gols da rodada.
Era delicioso falar com a professora Maria Inês, a “minha biblioteca”, aquela que consultei até dezembro passado e que, lamentavelmente, se incendiou. Dela adquiri repertório, habilidades críticas, consciência retórica. Sendo assim, devo a ela os principais subsídios de minha profissão.
Quero me lembrar de Maria Inês de Araújo Prado a cada texto que escrever. Tenho obrigação de me lembrar de Maria Inês de Araújo Prado sempre que houver pão em minha mesa.
Hediene Zara é jornalista, autor de três livros e mestre em Psicossociologia da Comunicação.
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