Iniciamos este texto lembrando o famoso título de Mariano Enguita “Educar em tempos incertos”. A discussão exige reavaliar tudo o que vem acontecendo na área da educação escolar. No mês de outubro comemoramos o “ser professor”. Esta data comemorativa remete a 15 de outubro de 1827, dia em que o imperador Pedro I instituiu o ensino elementar no Brasil por decreto que a história consagrou como a nossa “Primeira Lei Geral do Ensino”. O edito imperial mandava que se criassem“ escolas de primeiras letras” em todo o país e dava as linhas do que e como nelas ensinar. E fica a pergunta: por que essa lei foi importante para o professor? Simples: foi a primeira vez que a política educacional lembrou-se da formação de professores. O decreto instituía o método monitorial ou mútuo como o modo oficial de ensino e mandava que os professores fossem instruir-se nesse método nas capitais das províncias. Detalhe: “às suas custas”. Apesar de não pagar a formação dos docentes no esdrúxulo método importado dos ingleses, o governo imperial pelo menos mostrou interesse em sua formação. Foi o bastante para que a data fosse eleita para comemorar o Dia do Professor.
Nos atuais e incertos tempos, os professores passam por mudanças no seu modo de trabalhar e conviver com os alunos. Nosso tempo não é cíclico, uma mesma geração de professores protagoniza diferentes situações com o ritmo social alterado. A pandemia revelou novos talentos, dado o acelerado momento de acesso às tecnologias que nos atravessou em março, com as aulas remotas. Os professores estão buscando novas formas de existência e resistência.
No entanto, a essência do trabalho docente não está no domínio das novas tecnologias, mesmo admitindo que novas ferramentas de trabalho certamente fazem a educação sobreviver. O ponto fulcral é o desafio da adaptação ao novo,da busca por novas referências e o olhar para frente, prevendo e tirando o melhor do atual momento. O professor é aquela categoria profissional que aprende sempre, reformula-se e cuja formação inicial é apenas o gatilho para novas buscas. Vamos nos construindo professores na infinitude das relações que estabelecemos com o conhecimento e com todos os outros agentes que alicerçam a nossa prática. Cotidianamente.
Importante destacar o papel da escola em relação às mudanças sociais. Os professores, tanto individualmente quanto como categoria, não pararam de crescer. Sobrevivemos a todas as intempéries. Somos necessários à construção de uma sociedade realmente humana. Afinal, desde Kant educar é fomentar o crescimento humano.
Trabalhamos com formação de professores, o que nos coloca dentro e perto das alegrias e reveses deste processo. Conhecemos o trabalho árduo que a grande e esmagadora maioria dos professores e professoras estão fazendo, esforço imenso e que vai muito além de sua obrigação e de sua carga horária. Os professores reinventaram sua atuação enfrentando todas as dificuldades de ensinar no contexto em que vivemos. Buscando depoimentos de pais e mães, vemos o reconhecimento justo e de admiração pelo trabalho hercúleo que vem sendo feito para ensinar nesses “tempos incertos”.
No dia de hoje, homenageamos a todos os professores e professoras que exercem o magistério de uma forma jamais pensada, lutando e se superando, convivendo com anseios, esperanças e desesperanças. Que, nessa data de 15 de outubro, sejamos todos levados à reflexão sobre o poder que usamos para promover pessoas e torná-las melhores para a sociedade que ajudamos a construir. Reportemo-nos ao 15 de outubro de 1827. E estejamos conscientes de que a reconstrução educacional do país passa pela formação e aprimoramento dos professores, não no método de Lancaster, como queria o Império nascente, mas no aprofundamento da ciência e da tecnologia de hoje. E não às custas dos parcos salários dos nossos docentes mas pelo esforço de toda a sociedade para a qual trabalham.

Maria Eugênia de Lima e Montes Castanho é pedagoga, doutora em Educação pela Unicamp, titular fundadora do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas.

Warlen Fernandes Soares é pedagoga, especialista em Psicopedagogia (Puc-Campinas) e em Educação Especial (Unisal), mestre em Educação (Puc-Campinas) e professora na rede municipal de ensino.

