As mulheres e o futebol

Matéria veiculada recentemente nesta página de esportes do O MUNICIPIO, intitulada ‘CBF iguala premiações de seleções masculina e feminina’, revela uma atitude que deveria ter sido tomada há tempos pelos comandantes responsáveis do nosso futebol. Esta falha, por décadas, apontou uma nítida demonstração preconceituosa. À frente de tudo e de todos, no entanto, em nossa cidade há 68 anos, a audácia e independência de jovens alunas fez acontecer um jogo em prol da formatura, burlando a determinação do Estado Novo – período do governo Getúlio Vargas, entre 1937 e 1945 -, quando foi instituído o Decreto-Lei 3.199 (em 1941) proibindo o futebol para o sexo feminino por incompatibilidade fisiológica. Foi extinto, felizmente, em 1979.

A ousadia daquelas garotas, em 1952, foi um pontapé inicial em busca da liberdade de opções na vida. A repercussão do evento – idealizado por alunas do Colégio ‘Christiano Osório de Oliveira’ -, driblando a Lei, o preconceito, o machismo, a forte influência religiosa e uma cidade elitizada como a São João da época, ficou para a história. Levou cerca de 5 mil pessoas à Esportiva e mobilizou a imprensa através da TV Paulista (São Paulo), Rádios Nacional (Rio de Janeiro) e Difusora local, além da Gianelli Filmes.

Aquele momento mágico de atrevimento chamou a atenção do país, como um juízo antecipado do que teimosamente permaneceria impeditivo por décadas. Rendeu muito falatório, sim, mas aflorou a personalidade marcante das mulheres da época e serviu de exemplo à nação.

E deixa repercussões ainda evidentes. Há seis anos (em 2014), 73 anos após o decreto proibitivo de Vargas, ironicamente o Palácio do Catete no Rio de Janeiro – sede do governo àquela época -, recebeu o ‘Espaço Futebol para a Igualdade’, evento apadrinhado pela craque Marta, que proporcionou ao visitante uma nova maneira de enxergar o futebol feminino além do jogo em si, tratando-o como plataforma de superação de preconceitos de gênero, raça e condição social.

Três anos depois, a meu convite como integrante do MEMOFUT – Grupo Literatura e Memória do Futebol – esteve presente em uma das reuniões no Estádio do Pacaembu a professora Sônia Bissoli, representando as colegas de escola do ‘Jogo da Formatura’ de 1952, proferindo palestra no Auditório ‘Armando Nogueira’ diante de historiadores, jornalistas renomados e presenças ilustres como as do maestro João Carlos Martins, do cineasta Luiz Carlos Barreto e do ex-jogador Cláudio Adão. São João à frente dos tempos!

Leivinha Oliveira

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