Por ter nascido nas imediações da Esportiva, extraí do clube tudo que tive direito por toda juventude e adolescência. Entre as inúmeras amizades ali construídas, destaques em várias modalidades, uma em especial me chamou a atenção pelo potencial nas piscinas: Sebastião Álvaro Galdino, descendente de família humilde, comportamento exemplar e títulos em profusão.
Surpreso com seu falecimento semana passada procurei por outro amigo e igualmente fera da natação, Jorge Abbud, para que me descrevesse em poucas palavras de que maneira Galdino o influenciou a chegar ao patamar alcançado na carreira. Estas foram suas considerações: “Esportiva, um domingo de janeiro. Manhã quente. O rapaz ia e voltava, de um lado para o outro da piscina e sempre que chegava à parte mais rasa, parava e desligava o cronômetro embutido em um saquinho plástico pendurado no bloco de saída. Dia seguinte, mesmo horário, seis da manhã, lá estava ele fazendo a mesma coisa. Isso se repetiu por semanas”.
“Eu tinha apenas 10 anos e fiquei admirado com o que vi. Passei a idolatrar aquele estranho que nadava e nadava, e quando eu pensava que ele iria parar, nadava mais um pouco. Que determinação! Sempre sozinho, pelo menos, naquele horário que eu o via na piscina”.
“O tempo passou. E como, desde criança, sou movido a desafios, raciocinei: vou fazer o mesmo que ‘esse moço’ faz. É legal demais. Comecei a participar dos treinamentos da equipe e descobri que aquele nadador solitário, minha inspiração, era o `Tião Galdino´, campeão estadual, gigante, 17 anos, ídolo da turma e meu também”.
“Num final de tarde, piscina vazia, alguém me chamou: Ei garoto, chega aí. Era o grande Galdino. Pensei que fosse levar uma bronca por alguma coisa errada que eu tivesse feito. Engano meu. Ele colocou a mão no meu ombro e disse: Sabe que você nada muito bem o Clássico? Se quiser melhorar seus resultados, posso te ajudar!”.
“Ele se referia ao atual nado Peito. Então me ensinou a fazer uma tal `filipina´, técnica submersa utilizada até hoje e realizada após saídas do bloco e viradas. Um ano depois, realizei meu sonho, veio meu primeiro Campeonato Estadual, em Mococa, graças à milagrosa filipina, que meu ídolo Tião Galdino havia me ensinado, com tanto carinho, disponibilidade e atenção! Obrigado querido amigo e parceiro de água! Não fomos nós que perdemos um guerreiro, foram os anjos que ganharam um grande companheiro! Saudade!”.

Leivinha Oliveira




