A escola como deve ser

A distância não nos define, é apenas uma circunstância, é parte de um cenário. A partir daí pusemo-nos a refletir sobre as orientações e protocolos cumpridos e a cumprir pelas escolas frente à atual crise sanitária ocasionada pela Covid-19.

Diante de um cenário ainda temível, fala-se na reabertura das escolas. Grandes são as indefinições, imensa a insegurança quanto ao caminho a trilhar. Face à circunstância, tememos; apesar da distância, trabalhamos, produzimos, buscando, nós, os professores, amparar-nos uns nos outros no enfrentamento de nosso difícil cotidiano. Compramos lousas brancas, fizemos vídeos, podcasts, gravamos aulas, contamos histórias, estabelecemos contatos com as famílias dos alunos, preparamos roteiros, e, em legítima defesa, nos protegemos e protegemos os outros.

A emergência sanitária nos levou a uma nova frente de trabalho, de tempo de formação em exercício. Nosso discurso face a esse inesperado cotidiano mudou. A mesma distância que não nos define exige de nós a observância dos conteúdos essenciais básicos, de raiz. Partimos de que o principal currículo para nossas escolas é a vida. O que dizer da volta às aulas nestes tempos? A fundação Fiocruz desaconselha o retorno. Como nós, os professores, nos pomos com respeito a isso?Enfrentamos muita insegurança quanto aos cuidados com a escola e seus agentes.

Várias fontes especializadas definem riscos às escolas, numa sequência crescente: Menor risco: professores e alunos trabalhando em ambientes virtuais. Mais riscos: alunos não se misturando, permanecendo com o mesmo professor e não compartilhando objetos, mantendo–se a um metro e meio de distância uns dos outros e enfim dividindo-se as turmas em subgrupos.Maior risco: aulas presenciais.

Temos que olhar a particularidade da escola pública. A discussão sobre este assunto deve levar em conta desde o espaço físico até ao risco que o pessoal em trabalho irá correr e a preservação de seus direitos laborais. Será que o trabalho nessas condições deve ser considerado insalubre? É preciso ter presente que o educador faz um pacto com a vida.

A cultura escolar terá que ser alterada, com atenção para os seguintes pontos: escalonamento de professores e alunos na entrada e na saída; dupla entrada; treinamento para aferição da temperatura e testagem dos envolvidos no processo de ensino e aprendizagem; apenas uso de sapato fechado; e muitos outros, incluindo higienização de maçanetas e outros equipamentos e espaços, troca das máscaras de duas em duas horas e mais aspectos que não caberia aqui elencar.

Quanto ao espaço físico, a Fiocruz recomenda trajetos delimitados dentro da escola. Não parece que isto seja possível em se tratando dos adoráveis serelepes que são as crianças. Também não deve haver movimento de mão e contramão. Há que haver controle do grupo de alunos e professores no qual uma criança fique doente. Uma vez detectados os sintomas de COVID na criança, esta terá que ser direcionada a um espaço de isolamento onde esperará até que os pais a busquem. Todos estes fatores impactarão o calendário escolar que, a nosso ver, não precisa coincidir com o calendário civil.

A sala dos professores também será um espaço de não lugar a frequentar em conjunto para evitar aglomeração. Como o nosso meio de trabalho presencial é a voz, de que modo a emitiremos usando máscara que é uma barreira física? Teremos microfones individuais? Todos os contatos das famílias deverão estar atualizados para emergências. A máscara para o professor será transparente para favorecer a leitura labial? Temos menos respostas e mais aflições.

A limpeza e desinfecção dos espaços deverão ser feitas de duas em duas horas. Daí a importância de seguir as prescrições e advertências contidas nos rótulos dos produtos para garantir sua eficácia e segurança. Os livros usados deverão ficar em quarentena. Não vamos poder abraçar o nosso aluno quando chorar. Não poderá mais haver o autosserviço nas escolas nos momentos de lanches e refeições.

Para o retorno, devemos ter garantia de que os profissionais e as crianças não corram riscos, que não saiam de suas casas para o encontro com o desconhecido. Estamos prontos para voltar e correr tantos riscos? Que grau de autonomia as escolas têm? Seguimos provocando.

Amar ao próximo. O velho mandamento ganha força nos dias que correm. Mesmo que o próximo esteja distante – seja o professor, seja o aluno – é imperioso que o protejamos e o respeitemos em sua integridade.

Maria Eugênia de Lima e Montes Castanho é pedagoga, doutora em Educação pela Unicamp e titular fundadora do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas.

Warlen Fernandes Soares é pedagoga, especialista em Psicopedagogia (Puc-Campinas) e em Educação Especial (Unisal), mestre em Educação (Puc-Campinas) e professora na rede municipal de ensino.

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