Poços e a Democracia Corintiana

A Democracia Corintiana foi um movimento liderado no clube por alguns jogadores politizados – casos de Sócrates, Wladimir, Casagrande e Zenon -, entre 1981 e 1985, nome batizado pelo publicitário Washington Olivetto ao período em que os atletas participavam das principais tomadas decisivas, desde contratações, abolir concentrações nos pré-jogos, direito ao consumo de bebidas alcoólicas em público, liberdade para expressar opiniões. Tudo girava em torno do voto igualitário de seus membros, de modo que o proferido pelo técnico, por exemplo, valia tanto quanto ao de um funcionário.

O sucesso se deu graças ao encontro das pessoas certas no momento propício e se tornou o maior e único até hoje envolvimento ideológico da história do futebol brasileiro, numa espécie de “autogestão” do time, algo revolucionário para o contexto em que estava inserido.

Até 12 de março de 1981, no entanto, dois dos mais atuantes do grupo – Sócrates e Casagrande – não se conheciam pessoalmente. Neste dia, em Poços de Caldas, ambos trocaram elogios antes do amistoso entre Caldense e Seleção Brasileira – para muitos, uma das melhores de todos os tempos -, sugerido pelo técnico Telê Santana visando o amistoso com o Chile três dias depois, em Ribeirão Preto, e preparativo para a Copa da Espanha de 82. O público lotou o Ronaldão e a renda superou os dois milhões de cruzeiros, moeda da época.

Sócrates era um dos líderes daquela equipe mágica, enquanto Casão, prestes a completar 18 anos, estava na Caldense emprestado pelo Corinthians. Desde aquele primeiro contato a amizade entre eles evoluiu, Casagrande retornou ao Timão no ano seguinte, floresceu a Democracia, a equipe foi bicampeã paulista (82/83) e a dupla ainda disputou junta a Copa de 86, no México.

Resumindo o amistoso, a Seleção de Telê venceu, 1 a 0, com Waldir Peres, Edevaldo, Oscar, Edinho e Júnior; Batista, Sócrates e Zico (autor do gol); Paulo César, Reinaldo e Zé Sérgio. Como opções, João Leite (goleiro), Luizinho, Toninho Cerezo, Serginho Chulapa, Leandro, Éder, Paulo Isidoro, Dirceu, Pedrinho e Tita. A Caldense, dirigida por Airton Diogo, teve Gilberto, Orlando (Edecir), Jânio, Camilo (Paulino) e Paulo Roberto (Armando); Donizetti, Alfredinho (Mojica) e Edinho; Alexandrino, Casagrande e Jota Lopes (Alfredo).
Aquela tarde de quarta-feira em Poços, além de testemunhar e constatar a mais pura arte de jogar futebol de um selecionado inesquecível, foi de pontapé inicial da Democracia Corintiana!


Leivinha Oliveira
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