A cinomose canina é uma enfermidade viral altamente contagiosa e pode se manifestar clinicamente de várias maneiras. A encefalite é uma das formas mais comum e grave da doença. É mundialmente importante para os cães domésticos e uma ameaça constante as outras espécies de canídeos silvestres.
Há décadas é conhecida no Brasil. Acomete milhares de cães que morrem todos os anos. É endêmica na nossa região, ou seja, ocorre em certo número de casos esperados na população canina, especialmente entre os animais menores de 2 anos e os não vacinados. Surtos e epizootias, ou seja, o aumento do número de casos além dos esperados, acontecem de forma cíclica e dependem de vários fatores como: o clima, a cepa do vírus, a faixa etária da população canina, a cobertura vacinal, etc. Também é sazonal: tende a ter maior prevalência nos meses secos e frios.
É uma das doenças mais importantes na clínica veterinária de animais de estimação, no entanto, não é objeto de vigilância e controle de nenhuma pasta da administração pública, pois não se trata uma zoonose (doença que pode ser transmitida dos animais para o ser humano); nem um problema econômico de relevância para a produção animal, pois afeta basicamente animais de estimação; e raramente animais domésticos, por isso também não chega a preocupar, de maneira geral, os ambientalistas.
A cinomose é uma doença perfeitamente prevenível através da vacinação oportuna e adequada. Neste sentido, sua prevenção cabe ao guardião do animal, hoje também chamado “tutor”. No conceito moderno de responsabilidade na posse de animais, o tutor é aquele que tem a responsabilidade de zelar pelos direitos, saúde e bem estar do animal sob os seus cuidados.
Por outro lado, por ser uma encefalite e causar sintomas neurológicos, a cinomose pode, ocasionalmente, ser confundida com o perfil clínico raiva urbana em cães. Nas últimas décadas, com a eliminação da variante do vírus rábico que causava a forma “furiosa” da raiva, os cães que morrem após apresentarem sinais neurológicos como: paralisa, incoordenação motora, tremores, etc., passam também a ser sentinelas urbanos da raiva transmitidas por morcegos, que comumente se manifestam clinicamente na forma “paralítica” da raiva.
Cabe aos serviços vigilância de zoonoses diretamente ligados ao Sistema Único de Saúde (SUS) atentar para o diagnóstico laboratorial diferencial, com envio regular de amostras biológicas provenientes de cães suspeitos de cinomose, ou que morrem após apresentarem sinais neurológicos. Atenção especial deve ser dada aos animais causadores de acidentes por mordeduras ou arranhões.

Roberto Hoffmann é médico veterinário sanitarista, mestre em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública (USP) e ex-coordenador do CCZ de São João da Boa Vista

