A Toca fecha as portas

Em julho de 2016, quando do centenário da Sociedade Esportiva Sanjoanense, tive uma incumbência das mais gratificantes: entregar uma camisa comemorativa à data no local que abriga o maior acervo cultural do Rio de Janeiro, a Toca do Vinicius, em Ipanema. O presente à casa permaneceu exposto durante os Jogos Olímpicos daquele ano e muita gente pôde contemplá-lo.

A Toca, inaugurada em 1993 como o Centro de Referência da Bossa Nova na Cidade Maravilhosa, mantém um comércio de raridades, é o ponto de encontro carioca para os amantes da arte, da cultura e do futebol, além de oferecer discos e livros, contando ainda com um auditório e a famosa Calçada da Fama, onde shows musicais com famosos acontecem constantemente. Porém, o que mais chama a atenção dos frequentadores é o acervo de 130 placas em cimento gravadas com as mãos de celebridades, atividade esta iniciada na década de 1960 no Restaurante Pizzaiollo, à Rua Montenegro – atual Vinicius de Morais, onde se localiza a livraria. A cantora Maria Bethânia teve o privilégio de ser a pioneira a ter as mãos ali registradas.

Desde então, outros nomes foram sendo convidados para este ritual, entre os mais conhecidos Bellini, Chico Buarque, Roberto Dinamite, Grande Otelo, Helô Pinheiro, Jairzinho Furacão, João Bosco, Marta Rocha, Menescal, Luís Carlos Miéle, Milton Nascimento, Nilton Santos, Zico, Os Cariocas, Oscar Niemayer, Zezé Motta, Pery Ribeiro, Pixinguinha, Ruy Castro, Toquinho e Vinícius de Morais.

Minha relação com a Toca se deu por meio do sanjoanense Renato Kemp Júnior, habitual frequentador, que me apresentou ao proprietário, Carlos Alberto Afonso, professor universitário carioca – vascaíno de coração e amigo de Bellini quando este atuou em São Januário – sabedor que este havia iniciado a carreira na Esportiva, em São João da Boa Vista. Foi o bastante para que comigo entrasse em contato solicitando a camisa centenária do clube para incluí-la na coleção dele. Com a Calçada da Fama lotada, resumi a história da SES e o significado daquele manto sagrado aos cariocas presentes.

Após 27 anos, devido ao recesso pela pandemia e o descaso por parte do governo e da Prefeitura do Rio em relação à cultura e sua preservação, a Toca do Vinicius não viu alternativa senão fechar as portas. Uma baixa extremamente significativa!

Leivinha Oliveira

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