Professores e pandemia

Hoje, em razão da pandemia e do isolamento social, vive-sena educação uma solução provisória para a aprendizagem: o Ensino Remoto Emergencial (ERE), algo que se assemelha à EaD no que tange ao uso de tecnologias. Inúmeros problemas são vividos nessa emergência. Perguntamo-nos: como estão os professores nesse momento?
Sabemos que em todo o país professores trabalham em suas casas no Ensino Remoto Emergencial, preocupados e refletindo sobre qual o melhor caminho para cada situação, interagindo com as inovações cotidianas e construindo novas formas de pensar e fazer educação. Isto exige dinamismo, trocas entre pares e muito estudo. A tecnologia é aliada do professor, se a entendermos desde a secular dupla giz e lousa até às mais recentes plataformas digitais.

Pesquisa recente revela quão pouco era conhecida para a maioria dos professores a organização de atividades em plataformas digitais e os recursos didáticos para tanto, embora a busca de interações pedagógicas com as novas gerações estejam presentes no campo da educação há mais tempo. Uma pesquisa, dividida em 4 estágios e incluindo as redes federais, estaduais e municipais, vem sendo realizada pelo Instituto Península, parceiro do MEC, denominada Percepção dos professores brasileiros nos diferentes estágios do coronavírus no Brasil. A pesquisa abrange quase oito mil respondentes de todos os estados do país (www.institutopeninsula.org.br).

Examinando os resultados de dois estágios já realizados pela pesquisa, vê-se que 88% afirmaram nunca terem dado aula virtual antes da pandemia e 55% declararam que, com seis semanas de isolamento, não tiveram suporte para ensinar fora do ambiente físico da escola, sendo que 75% manifestaram interesse em receber tal apoio.

Um dado importante é que os professores não receberam suporte emocional, fundamental para a saúde mental, o corpo e as emoções. No primeiro estágio da recentíssima pesquisa (março de 2020), dentre vários outros resultados surgiram os primeiros sinais de impacto sobre a saúde mental. Muitos professores declaram-se ansiosos e sobrecarregados, com baixa oferta de suporte emocional e treinamento nas redes, sentindo que a infraestrutura de trabalho é limitada. Ocorrem novas atividades que quebram as rotinas, provocando mudanças de hábitos dos docentes para interagirem remotamente com os estudantes. Suas demandas atuais incluem treinamento para ensinar à distância, apoio pedagógico para auxiliar os alunos e apoio psicológico (emocional).

A quase total maioria dos professores tem telefone celular (99%) e 90% deles têm notebook, sendo que, desses, 38% o compartilham com outra pessoa da família. 46% possuem desktop, 25% têm tablets. A ferramenta mais utilizada no contato com os alunos é o WhatsApp (83%), embora na rede particular ganhem espaço os Ambientes Virtuais de Aprendizagem (AVA).

Dentre tantos aspectos que podem ser estudados, levantemos algumas perguntas. É possível criar vínculos afetivos aluno-aluno e alunos-professor em uma modalidade em que apenas a linguagem verbal é responsável pela interação? Será que apenas alguns professores conseguem estabelecer vínculos afetivos com os alunos apesar da distância física? Em síntese: quais fatores interferem na construção e na qualidade dos vínculos afetivos?

Sobre as condições de atividade que são oferecidas aos professores é preciso estar atento aos danos do excesso de trabalho. Urge refletir sobre mudanças necessárias nas atividades a que foram levados a exercer e que impedem relações interpessoais enriquecedoras na construção do conhecimento. Isso está presente no ato de ensinar, que deve potencializar a humanidade do professor e de cada aluno, de modo profundo e não superficial.

O respeitado educador francês Georges Snyders, dentre outros livros, escreveu três sobre uma escola onde prazer e alegria estejam presentes, esclarecendo de que alegria e de que prazer estava falando. Numa entrevista manifestou preocupação com crianças da periferia social, já que são as crianças das classes mais favorecidas que são bem sucedidas na escola e, nela sintam ou não alegria, continuam a estudar, porque os pais as acompanham e as ajudam a formar hábitos de estudo, reforçando a ideia de que o futuro delas depende da escola. A maior parte das crianças em situação de fracasso vem da periferia e precisam ter prazer em estudar; do contrário, desistirão, abandonarão a escola, se puderem. Se não puderem, continuarão, mas não aprenderão muito. Quanto mais os alunos enfrentam dificuldades – de ordem física e econômica – mais a escola deve ser um local que lhes traga mais atrativos. Eles precisam ter o estímulo do prazer. A alegria deve ser prioridade para aqueles que sofrem mais fora da escola. Parece utópico, mas é necessário sonhar.

É assim que se forja o futuro. Tarefa urgente e necessária, porém difícil. A situação atual do Brasil, incluindo a da educação, mostra que os absurdos em várias áreas crescem a cada dia, sendo necessária uma reação permanente de parte dos educadores realmente comprometidos com o bem das novas gerações. Em nossa área educacional reafirmamos que união e visão objetiva dos problemas hão de estar presentes na luta pelo ideal democrático, inspirada nas palavras do pioneiro John Dewey, autor do até hoje indispensável livro Democracia e educação.

Maria Eugênia Castanho é doutora em educação pela Unicamp e membro fundadora do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas.

Warlen Fernandes Soares é pedagoga, especialista em Psicopedagogia (PUC-CAMPINAS) e em Educação Especial (UNISAL), mestre em Educação (PUC-CAMPINAS) e professora na rede municipal de ensino.

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