Entre jornalistas e amadores

A palavra é o instrumento de trabalho do jornalista. Seu correto manuseio, além de obrigatório, serve como ponto de separação entre profissionais e amadores, deixando claro quem é quem.

O empirismo é, inegavelmente, a matriz de inovações e de descobertas grandiosas. O trabalhador prático, criativo, merece respeito por se empenhar em estratégias alternativas (desde que lícitas) para alcançar êxito. A experiência no ramo das comunicações é importantíssima, mas não substitui o conteúdo filosófico da esfera teórica. Aquele que não admite correção e opta por insistir no uso de uma linguagem equivocada, certamente não desempenhou seus compromissos escolares com o devido esmero, pois a jornada do conhecimento exige humildade, eis que começa no incômodo com a própria ignorância. A ascensão à intelectualidade, por seu turno, não credencia o estudioso a agir com arrogância perante os demais. Revoltar-se contra os erros dos amadores, todavia, é prova de zelo profissional.

No Brasil, o Supremo Tribunal Federal interpretou, de forma desastrada, o princípio da liberdade de expressão. Terminou por despejar na mídia (que tem comemoração neste dia 21) milhares de analfabetos funcionais, que anseiam por consideração, como se jornalistas fossem. “Se perguntarmos a quem quer que seja sobre a possibilidade de se trabalhar como engenheiro, dentista ou médico sem diploma de Ensino Superior, todos respondem que não; agora, na questão do jornalista, na qual a graduação ensinará técnicas de redação, ética redacional, entre outras matérias essenciais ao desempenho da profissão, há divisão nas respostas”, afirma Salviano (2006, p.30). Tal divisão tem amparo na proposição liberal da pós-modernidade, fundada neste novíssimo individualismo que permite que os sujeitos “criem identidades (…) que podem ser reinventadas e transformadas” (Elliot, 2018, p. 471). Na pós-modernidade de nosso país, se o indivíduo acredita ser jornalista, automaticamente, ele “é um jornalista” (com afagos do STF).
A concepção do Jornalismo enquanto ciência só atinge seu ápice com o controle de certas minúcias que não estão ao alcance dos leigos. Daí decorre o caráter imprescindível da formação acadêmica, algo que nem o Brasil, nem os brasileiros, dominam o significado com exatidão.

Hediene Zara é jornalista, especialista em Marketing Estratégico e mestrando na área de Psicossociologia da Comunicação. E-mail: [email protected].

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