Modesto, o craque caipira

 

Entre as 48 entrevistas que fiz para o jornal O MUNICIPIO com personalidades do esporte em 1995, uma me marcou muito: João Modesto, zagueiro do Santos e companheiro de Pelé na época áurea da equipe como a melhor do planeta na década de 1960. Pois ele nos deixou na última quinta-feira (30), aos 79 anos, em sua cidade natal, São José do Rio Pardo, onde estive com ele naquela oportunidade. De família humilde, criado na Fazenda Santa Lúcia, deixou a zona rural com 11 anos para iniciar os estudos e ingressar na base do Rio Pardo FC, time onde algum tempo depois se sagrou, em 1956 e 57, bicampeão amador do estado.

Em 1959 teve a primeira chance como profissional no Barretos Esporte Clube, permanecendo até 63, ano em que se uniu à esposa Dagmar. Em ascensão, seguiu para a Prudentina, de Presidente Prudente, onde foi considerado em 1964 a revelação do interior na Divisão Especial do Campeonato Paulista. O Santos, que acabara de conquistar o bi mundial interclubes, não perdeu tempo e o contratou para um revezamento com Mauro Ramos de Oliveira, titular absoluto, mas em idade um pouco avançada.

Na Vila permaneceu até 1967, atuando em partidas importantes como as finais dos bicampeonatos Paulista e da Taça Brasil (64/65) e do Rio-São Paulo de 64. Por um problema na vista esteve inativo por um ano, rescindindo contrato com o alvinegro. Retornou a campo pelo Coritiba, onde, enxergando com apenas um olho, duas vezes (68 e 69) foi campeão estadual.

Pelo Coxa, no dia 12 de novembro de 1969, em jogo pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa, Modesto sofreu uma tremenda decepção. Na derrota para o Corinthians no Belford Duarte (3 a 2), um dos gols do Timão foi marcado por meio de um pênalti de sua autoria sobre Roberto Rivellino, por ele contestado acintosamente junto ao árbitro Airton Vieira de Moraes (o Sansão), que considerou sua atitude uma agressão. Mais um ano parado, agora por suspensão.

Desiludido, retornou às origens, onde encerrou definitivamente a carreira na AA Riopardense e ganhou alguns títulos. Pai de três filhos – Luciane, Cilmara e João Henrique, quatro netas, Beatriz, Gabriela, Laura e Mariana -, Modesto fez parte da vasta constelação de estrelas do futebol revelados em São José do Rio Pardo, casos de Richard Petrocelli, Edson Boaro, Rondinelli, Zanata, Luís Fernando Abichabki, Biquinha, Andrezinho, Márcio Araújo e Aloísio Mulato, entre outros. “Mas fui um privilegiado, o único a ter jogado com Pelé”, me disse, sorridente, sob as jabuticabeiras de sua aconchegante residência.

Leivinha Oliveira

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