Soberania hermana

A chapa de oposição liderada por Alberto Fernández, que tem a ex-mandatária Cristina Kirchner como vice, venceu com larga vantagem as primárias presidenciais argentinas realizadas no último domingo. Caso os números se repitam na eleição de fato, no fim de outubro, Fernández será eleito em primeiro turno.

O resultado também é, de maneira indireta, uma derrota para Jair Bolsonaro (PSL), que abraçou Macri e fez críticas raivosas a Cristina Kirchner.

Logo na segunda-feira, o presidente brasileiro comentou a vitória prévia de Fernández usando da truculência que lhe é peculiar. Ele afirmou que o Rio Grande do Sul, que faz fronteira com a Argentina, pode tornar-se uma “nova Roraima”, em alusão ao estado que recebe imigrantes que fogem da crise na Venezuela.

Em uma comparação simples a chapa Fernández/Kirchner representaria a volta da “esquerda” argentina ao poder, o que Bolsonaro evidentemente abomina. A questão fundamental é, que como presidente da República do Brasil, ele tem o dever institucional de promover o princípio internacional de não-ingerência em um governo estrangeiro e em assuntos internos da Argentina. Suas falas demonstram um absurdo desrespeito a soberania nacional argentina e a livre escolha de seu povo.

A Argentina é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil e membro do Mercosul. China, EUA e Argentina respondem por quase 50% das exportações brasileiras, porém nos primeiros quatro meses de 2019, o Brasil acumulou déficit de US$ 337,54 milhões nas trocas comerciais com os hermanos. A verborragia de Bolsonaro e de sua equipe econômica certamente não ajudarão a melhorar os números dessa relação.

Eduardo Vella é jornalista e escreve em O Município semanalmente, aos sábados. [email protected]

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