Mais emoção ou mais razão?

A menos de um mês do pleito, nuvens pesadas continuam a empanar o cenário. Ainda não enxergamos os atores do palco no segundo turno, mas dá para distinguir traços que poderão influenciar a decisão final do eleitor, a começar por duas alavancas que mexem com o sistema cognitivo: a razão e a emoção. A emoção abriga a torrente de sentimentos das pessoas, como raiva, indignação, vingança, simpatia/antipatia, medo, desespero e por aí vai. Já a razão implica processos críticos, a partir da comparação entre protagonistas, análises apuradas sobre os perfis capazes de produzir a sentença: o governante certo no momento adequado para o lugar correto.

Como se extrai o índice de razão e emoção ao correr de uma campanha eleitoral? Grupos submetidos a uma bateria de pesquisas qualitativas dão aos marqueteiros as clamadas respostas. Mas uma simples observação sobre o dicionário usado pelos figurantes e suas respectivas assistências já é suficiente para se ter ideia dos vetores que movem o interesse do eleitor. O clima geral do país – que se mede pela satisfação/insatisfação do consumidor – pode ser um ponto de partida. Como tenho enfatizado, o bolso enche a geladeira, que supre a barriga e comove o coração, fazendo com que a cabeça do eleitor aprove candidatos que tenham contribuído para tal situação. A recíproca é verdadeira.

Na paisagem, a cor vermelha do sangue derramado nas ruas pelas torrentes de violência tem o condão de fazer ecoar um forte clamor pelo combate frontal à bandidagem. O Brasil, como se deduz pelas ondas de criminalidade que se espalham em todas as regiões, tornou-se gigantesca delegacia de polícia. Daí o volume crescente do discurso do fígado, sob a medrosa movimentação dos habitantes em ruas e praças, principalmente nas periferias desprovidas de vigilância e dominadas por gangues e milícias.

O fato é que o Brasil está rachado, sinalizando certa igualdade entre os números. De maneira aproximada, pode-se distinguir 30% de votos para cada margem extrema (direita e esquerda) e 40% repartidos entre o centro e seus dois lados (centro-esquerda e centro direita). Sob a teia dos 100%, estão no páreo Jair Bolsonaro, Fernando Haddad, Ciro Gomes, Geraldo Alckmin e Marina Silva.

A temperatura dos próximos dias, com a acomodação das placas tectônicas dos programas eleitorais, contribuirá para o fechamento do processo decisório. De forma a direcionar o rumo a ser seguido pelos 147 milhões de eleitores.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação

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