O que sabem as crianças?

Crianças trazem sempre um profundo fascínio pelos mistérios da natureza. Se bem cultivado, este fascínio pode durar a vida inteira. Quando mais crescidinhos, o mundo quântico é um dos mistérios que fascinam a todos. A teoria quântica é uma das teorias mais bem sucedidas da história da ciência, mas ninguém entende muito bem seu funcionamento. A dualidade onda-matéria e o paradoxo da não-localidade que Einstein chamou de “ação fantasmagórica” são mistérios para além da percepção. São questões que escapam ao escopo do método científico. Haveria, então, um outro olhar possível?  No início da década de 1990, fui pesquisador num grupo na pós-graduação no departamento de eletrônica quântica na Unicamp. Ali, com acesso ao auge do conhecimento científico e boa dose de ingênua arrogância, me via capaz de explicar todo o universo, sua origem e evolução e até a consciência humana. Tudo, dentro de uma lógica impecável que rendia palestras empolgantes. Nesse período, recebi o convite da professora Durceli Braz para falar na celebração de uma efeméride importante da escola que dirigia. A palestra foi realizada na Sociedade Esportiva Sanjoanense com a presença de uma plateia grande e atenta. [Conto a história em detalhes no livro Os Avanços da Ciência Podem Acabar com a Filosofia?, que escrevi em parceria com o filósofo e semioticista Gustavo Rick]. Porém, naquela palestra em meio ao público, havia uma garotinha de cinco anos. Como sempre faço ao final da fala, depois de ter explicado passo a passo os mais de 13 bilhões de anos de evolução do universo, convidei o público a fazer perguntas: silêncio absoluto! Estavam impressionados! Sem palavras! Todo orgulhoso, já ia encerrando quando notei uma mãozinha erguida. “Eu tenho uma pergunta” – era a garotinha… Sorri, imaginando o que uma criança teria a questionar sobre tema tão profundo. Me preparei para me exibir um pouco mais. Pergunte, querida! Sem hesitar ela mandou: “Por que existe evolução?” […] Fiquei petrificado! Observem o detalhe: ela não perguntou como se dá a evolução, mas sim por que ela existe? Não há resposta para essa questão! Fiquei tão chocado que tive de me sentar. Eu achava que podia responder a qualquer pergunta e agora não tinha resposta para uma garotinha de cinco anos. Na verdade, a ciência ocidental não tem como responder pois se baseia na causalidade. Ela pode dizer “como”, mas não o “porquê”. Os porquês deixamos à especulação filosófica. Esse é um dos motivos pelos quais grande parte do conhecimento que vem do Oriente é chamado de Filosofia Oriental e não de Ciência. De fato, o psiquiatra Carl Jung defendeu que é possível produzir Ciência sem as amarras da visão ocidental. Tomando a Psicologia como ciência empírica, ao confrontar as questões relativas à percepção humana ele, juntamente com o físico Wolfgang Pauli (prêmio Nobel de 1945), criou o conceito de Sincronicidade. Conceito fundamental para a visão de mundo oriental, mas tão controverso que até hoje é mal compreendido. Jung identificou corretamente a diferença entre os pensamentos ocidental e oriental. Enquanto um se baseia na causa e efeito o outro se baseia na mudança constante e na sincronicidade. Para ele, o clássico das mutações, o Yi Jing (I Ching) é um exemplo claro de mecanismo para conhecimento do mundo – uma “ciência” diferente. Isso mostra que existem outras formas de saber o mundo. Foi isso o que aprendi com uma garotinha de cinco anos chamada Marcella.

 Ronaldo Marin é físico,
humanista e shakespeareano

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