Reconheço que, nos últimos anos, corrigir provas passou a ocupar uma parte importante da minha rotina. Entre pilhas de folhas, respostas, acertos e dúvidas, passo horas mergulhada nesse universo, que exige atenção, sensibilidade e concentração. É uma tarefa minuciosa, mas que quase sempre reserva muito mais do que simples correções.
Porém, basta bater os olhos nos nomes que assinam as provas, para que um amor muito especial imediatamente me inunde a alma. Aquelas pessoas que, errando ou acertando, são tão iguais no sentido de serem alunos, e ao mesmo tempo, únicas por terem individualidades tão distintas, do mais questionador ao mais introspectivo. Alguns, eu conheço de outras épocas (embora sejam todos muito jovens), outros eu já fui professora dos seus pais e finalmente alguns eu convivo há menos tempo. Então, corrigir provas torna-se um trabalho de conexão com essas pessoas e preenche minha vida com uma palavra que anda muito em alta atualmente: propósito. Sim, se levarmos em consideração os anos de magistério que acumulo, a aposentadoria e o fato de eu não ter resistido à tentação de voltar à frente da sala de aula, só posso interpretar como um propósito, ou uma espécie de missão que Deus me incumbiu nesta vida. E como este meu propósito requer responsabilidade!
Quando se escolhe ou é escolhido(a) para ser professor(a), é preciso ter sempre muito claro que, dia após dia, ano após ano, você vai entrar em uma sala e ficar diante de muitos olhares, ouvidos e vozes – que dependem ou esperam de você sempre o certo, o melhor, o conhecimento sobre um assunto –no meu caso,a Língua Portuguesa-, para que suas vidas sejam transformadas e mais completas.
A paciência, nessas horas, torna-se a borboleta de Mário Quintana*, mas em sentido contrário – temos que persegui-la e fazer de tudo para que ela não nos fuja! Voltando à correção das provas, com elas eu passo a refletir no quanto esse meu propósito me mantém viva e me impede de deixar o trabalho, ainda que aposentada. É quase uma questão vital mesmo! Conviver com meus alunos, crescer com eles e, a cada ano que se encerra, sentir os olhos marejados por ver mais “passarinhos” preparados para novos voos é uma sensação indescritível. Uma tarefa que, se eu tivesse outra vida e uma nova oportunidade pela frente, não escolheria algo diferente disso.
Deus, sem dúvida nenhuma, foi muito mais que amoroso comigo, ao me intuir para ser professora. Quando será que eu terminarei de “corrigir as provas”? O amor ao meu propósito me leva a exercer tal ofício enquanto Ele me quiser neste caminho.
E é no Colégio Externato que sigo escrevendo, todos os dias, uma das páginas mais bonitas dessa história que escolhi viver : a de educar .
Vamos fazer a análise sintática da nossa vida? Sejamos, pois, sujeitos ativos, para que o predicado culmine num objeto direto de sucesso!

Marly Camargo
Academia de Letras de São João da Boa Vista
Cadeira nº 6 – Patrono: Mário Quintana



