Recebi a seguinte reflexão feita pela antropóloga Margareth Mead, quando um estudante perguntou o que ela considerava o primeiro sinal de civilização em uma cultura. O estudante esperava que ela falasse sobre ganchos, tigelas de barro ou pedras para afiar. Mead disse que o primeiro sinal de civilização em uma cultura antiga é a prova de uma pessoa com um fêmur partido e curado. Mead explicou que no resto do reino animal, se você quebra a perna, você morre. Você não pode fugir do perigo, ir ao rio beber água ou caçar para se alimentar. Você se torna carne fresca para os predadores. Nenhum animal sobrevive a uma pata quebrada o suficiente para o osso curar. Um fêmur partido que curou é a prova de que alguém tirou tempo para ficar com aquele que caiu, curou a ferida, colocou a pessoa em segurança e cuidou dela até ela se recuperar. ′′Ajudar alguém a passar por dificuldades é o ponto de partida da civilização. Civilização é ajuda comunitária”, disse Mead.
Nosso tema é sobre as contradições do estudante no ensino superior. Trabalhei muito com trabalhadores estudantes no ensino superior, seja no horário noturno, seja no horário diurno. A reflexão de Margareth Mead mostra o conhecimento ligado à solidariedade. Os homens construindo crescimento aliado à solidariedade.
Civilização é mais que o conhecimento. A dimensão da cultura é caracterizada pelo crescimento da solidariedade. Os tempos contemporâneos, no mundo e especialmente no Brasil, apontam para direções de extrema diferença disso tudo.
O estudante que trabalha e estuda, se prepara para progredir, para exercer seu trabalho com mais conhecimento, competência, civilizando-se cada vez mais. Trata-se de adquirir não só conhecimento, mas, através do trabalho, socializar suas conquistas. E o que o trabalhador-estudante, geralmente pagando seus estudos, encontra nos cursos que frequenta?
Muitos estudantes estão em inúmeras atividades remuneradas ou não, muitos desempregados ou buscando emprego. Há os estudantes que enfrentam toda sorte de dificuldades, exercendo atividades remuneradas no tempo que logram furtar ao repouso, a escola tornando-se outro turno do trabalho.
Ricardo Antunes, discípulo do húngaro radicado na Inglaterra István Mészáros, professor em Sussex, nos mostra as diversas categorias de trabalhadores que têm em comum a precariedade do emprego e da remuneração; a eventual desregulamentação das condições de trabalho e a consequente regressão dos direitos sociais, a ausência de proteção e expressão sindicais, configurando tendência à individualização extrema da relação salarial.
Os professores, em sua formação, têm a colaboração dos outros professores. Precisamos ter densidade pessoal e cultural, trabalhar sobre nós mesmos. É preciso ler e gostar de ler. Há necessidade de grupos de pesquisa, de trabalho conjunto, de refletir sobre nossa própria prática. Ninguém é professor sozinho. O trabalho coletivo começa desde a formação.
António Nóvoa, educador e ex-ministro da educação em Portugal, acentua que não há dois professores iguais. Cada um encontra sua maneira própria. Há os conteúdos da área e há os conteúdos pedagógicos. No meio há um vazio a ser preenchido com conhecimento profissional docente: permite distinguir, agir, tomar decisões, mesmo com dúvidas. A sensibilidade pedagógica, o tato pedagógico, conhecimento que só o profissional tem, está no coração da força da profissão. Precisamos enfrentar com coragem estes tempos de dúvida e incerteza. Antes tínhamos estabilidade da escola, havia crise. Mas não essa mudança estrutural.
Brasil, 2026. A banalização da violência, por meio não apenas da polícia, mas dos próprios cidadãos, com militância radicalizada. Há recuos e desmoralização da profissão, desgaste social, psicológico, dificuldade de agarrar essa profissão. Muitas tensões e pressões. Há 200 anos não há tempo tão complexo como hoje, com muitas dificuldades. Trata-se de um tempo de mudança. Precisamos de força e coragem. Otimismo sem inocência.
Encerro, com duas consistentes considerações. Primeiro retomando Margareth Mead, ′′Ajudar alguém a passar por dificuldades é o ponto de partida da civilização. Civilização é ajuda comunitária”.
E com as indispensáveis palavras do educador Paolo Nosella: “só uma relação viva e responsável com o passado (história) e com o futuro (utopia) nos torna solidários com o destino da humanidade”.

Maria Eugênia L. M. Castanho, professora universitária, é doutora em Educação pela Unicamp. Titular fundadora do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas




