Em alguma ocasião de nossas vidas somos acometidos por algum tipo de presságio. “A palavra vem do latim ‘praesagium’, que significa previsão ou adivinhação do futuro. Está relacionada com a ideia de antecipar acontecimentos antes de acontecerem. Na Roma Antiga, a ideia de presságio estava muitas vezes ligada à interpretação de sinais da natureza, como o comportamento dos animais, fenômenos naturais e acontecimentos considerados invulgares. Esses sinais eram interpretados como mensagens sobre o futuro. Com o passar do tempo, a palavra manteve a ideia de antecipação de acontecimentos, mas passou a ser usada mais frequentemente de forma simbólica ou figurada, sobretudo na literatura e na linguagem cotidiana. Um estudo universitário (Studocu) concluiu que algumas superstições populares dizem que ver um gato preto à noite é um mau presságio, sinalizando azar ou perigo. Em muitas religiões antigas, os presságios estavam ligados a sinais enviados pelos deuses ou pelo destino e certos fenómenos naturais eram interpretados como mensagens divinas. Por exemplo, na Roma Antiga, o voo de aves ou o comportamento de animais era interpretado como um presságio dos deuses, indicando se uma decisão ou ação teria sucesso ou fracasso. Hoje em dia, a palavra é usada sobretudo de forma figurada, para indicar uma sensação de que algo pode acontecer. Por exemplo, o silêncio antes de uma discussão foi um presságio do conflito que acabou por acontecer. Ao longo do tempo, o significado da palavra tornou-se menos ligado à adivinhação real do futuro e mais associado a uma percepção ou interpretação simbólica dos acontecimentos. A palavra presságio é interessante porque mostra como os seres humanos têm tendência para procurar sinais que expliquem o futuro. Na literatura, essa palavra ajuda a criar mistério e emoção, porque faz o leitor imaginar o que poderá acontecer. Especialmente durante a Era do Modernismo, a literatura utilizou presságios como uma ferramenta narrativa poderosa. Autores como Graciliano Ramos, Jorge Amado, e José Lins do Rego exploraram temas sociais e regionais, enquanto romancistas como Murilo Mendes e Vinícius de Moraes deram voz às questões do cotidiano. O romance regionalista, que valoriza o espaço e o ambiente, mostra que a vida do personagem está intrinsecamente ligada ao lugar em que se encontra, transformando o meio e, portanto, a existência. Para George Santayana, filósofo, poeta e humanista espanhol (1863-1952), “Nosso caráter é um presságio de nosso destino, e quanto maior a integridade que temos e mantemos, mais fácil e nobre este destino tem probabilidade de ser”.
E para a escritora gaúcha, Lya Luft (1938-2021), “A esperança me chama, e eu salto a bordo como se fosse a primeira viagem. Se não conheço os mapas, escolho o imprevisto: qualquer sinal é um bom presságio”.
“Presságio” é o título de um poema do poeta português, Fernando Pessoa (1888-1935), que explora a dificuldade de expressar o amor, destacando a aflição do sujeito lírico diante da impossibilidade de um romance correspondido: “O amor, quando se revela,/Não se sabe revelar./Sabe bem olhar p’ra ela, /Mas não lhe sabe falar… Mas se isto puder contar-lhe/O que não lhe ouso contar,/ Já não terei que falar-lhe/Porque lhe estou a falar…”.
Em “Astro Vagabundo”, o cantor e compositor Fagner utiliza a figura do astro errante como símbolo de acontecimentos inesperados e transformadores. A metáfora do “astro vagabundo” remete tanto a um cometa ou estrela que cruza o céu quanto à sensação de presságio, reforçada por versos como “Na fumaça um anjo negro vai chegar” e “a cigana me falar que um inferno monstruoso vai entrar”. Bons ou maus presságios, associados ao sobrenatural ou embasados em experiências e verdades científicas sempre estarão presentes, de alguma forma, em nosso universo existencial.

Ana Lúcia Finazzi
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