O que é a morte?

Essa talvez seja uma pergunta que sempre permanecerá sem resposta. Como já apontavam os estoicos, onde a morte está, nós não estamos; e, onde nós estamos, a morte ainda não chegou. Ela sempre nos escapa.

Talvez por isso tentemos respondê-la de outras maneiras. Recorremos à biologia, à religião, à filosofia ou à medicina. Ainda assim, nenhuma dessas respostas consegue realmente nos confortar.

Poderíamos começar pelo básico: a morte é o fim. Ou, ainda, em um movimento de evitação da própria pergunta, defini-la em termos biológicos, porque, assim, não estaríamos falando de nós mesmos; estaríamos falando da espécie humana. E, de algum modo, isso nos conforta, porque nos escondemos na impessoalidade.

Acho curioso como, em alguns momentos culminantes da vida, quando a alegria e a felicidade parecem elevar todo o nosso ser, deixamos de sentir o medo da morte ou, como prefiro chamar, a consciência da finitude parece silenciar. Por um instante, ela já não está ali. Nesses momentos, é comum dizermos algo como: “Poderia cair um meteoro na Terra agora”. Obviamente, nosso egoísmo não nos permite dizer: “Eu poderia morrer agora”. Será que, quando estamos nesse “estado de vida”, esse medo cumpre seu papel e se retira? Que estado seria esse em que a consciência da morte, por um instante, nos liberta? Talvez porque, nesses instantes, já não estejamos preocupados em preservar a vida, mas simplesmente em vivê-la.

O filósofo alemão Martin Heidegger nos descreve como ser-para-a-morte, pois, desde o nascimento, começamos a morrer. Essa certeza, que desde o início permanece em nosso horizonte, nos lembra da finitude. Talvez aqui tenhamos a possibilidade de vê-la por outra perspectiva: aquilo que destrói nosso corpo pode nos salvar, se estivermos dispostos a ouvir o que ela tem a nos dizer.

No livro As Intermitências da Morte, Saramago nos apresenta um mundo em que a morte simplesmente deixa de trabalhar. À primeira vista, isso parece maravilhoso. Mas, se a morte pedisse demissão, se soubéssemos que a vida fosse eterna, o que escolheríamos hoje? É justamente a consciência da finitude que torna possível criar, estudar, buscar experiências e, principalmente, amar.

Ou seja, o ser-para-a-morte é, também, um ser-para-a-vida. Mas não qualquer vida. A sua. Um modo inautêntico de estar no mundo já é, por si só, uma forma de morte.

A consciência da finitude nos faz um convite. Não ao desespero, mas a viver uma vida mais autêntica, mais afinada com aquilo que grita dentro de nós e que não gritaria se a vida fosse eterna. Nossas preferências, nossos desejos e nossos sonhos habitam justamente a finitude.

Por isso, eu gostaria de mudar a pergunta. Não “o que é a morte?”, mas “o que a consciência da finitude torna possível?”.

Ver a morte no horizonte nos convida à emergência da vida. Isso não é carpe diem. Não é um convite aos prazeres. É um convite para nos sentarmos diante da própria existência e perguntarmos: “O que a consciência da finitude torna possível?”.

Ou, como diria Clarice Lispector: “Se eu fosse eu…”.

É essa pergunta que continua ressoando: se eu fosse eu, de verdade, o que a consciência da minha finitude tornaria possível?

Matheus B. Verne
é psicólogo clínico de orientação
humanista-existencial e
professor universitário

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