Vivemos em uma sociedade cada vez mais consciente de seus direitos, e isso representa um grande avanço democrático. O acesso à Justiça foi ampliado, a população está mais informada e o Poder Judiciário se consolidou como um importante instrumento de garantia da cidadania. No entanto, esse cenário trouxe consigo um fenômeno que merece reflexão: a cultura da judicialização.
Segundo o CNJ-Conselho Nacional de Justiça, no ano de 2026 a Justiça iniciou o ano judiciário com 75 milhões de processos em tramitação, cerca de 1 processo para cada 3,2 habitantes. E esse número é o menor dos últimos 06 anos.
Hoje, é comum que o primeiro impulso diante de um desentendimento seja pensar em um processo judicial. Questões familiares, conflitos entre vizinhos, discussões condominiais, problemas de consumo, relações de trabalho e até situações que poderiam ser resolvidas por meio do diálogo acabam sendo levadas diretamente aos tribunais. A impressão que se tem é que toda divergência precisa ser decidida por um juiz.
É importante deixar claro que recorrer ao Judiciário é um direito fundamental e, em inúmeras situações, é o único caminho capaz de assegurar a proteção de direitos violados. O problema não está em buscar a Justiça, mas em transformar o processo judicial na primeira, e muitas vezes única, alternativa para qualquer conflito.
Um processo judicial exige tempo, recursos financeiros e, frequentemente, provoca um desgaste emocional significativo. Mesmo quando uma das partes obtém uma decisão favorável, nem sempre o conflito é verdadeiramente solucionado. Em muitos casos, a sentença encerra o processo, mas não restaura as relações nem elimina os ressentimentos que deram origem à disputa.
Por isso, o ordenamento jurídico brasileiro passou a valorizar cada vez mais os chamados métodos adequados de solução de conflitos, como a mediação e a conciliação. Essas formas de resolução permitem que as próprias partes, com o auxílio de um profissional capacitado, construam soluções consensuais, preservando relacionamentos e reduzindo custos e tempo.
Essa mudança representa também uma transformação cultural. Precisamos compreender que diálogo não é sinal de fraqueza, assim como fazer um acordo não significa abrir mão de direitos. Ao contrário, muitas vezes demonstra maturidade, responsabilidade e disposição para encontrar uma solução mais eficiente e duradoura. Isso é especialmente importante em conflitos familiares. Em separações, disputas envolvendo filhos, inventários e partilhas, uma solução construída pelas próprias partes costuma produzir resultados muito mais satisfatórios do que uma decisão imposta por terceiros. O mesmo ocorre em conflitos empresariais, de vizinhança e em inúmeras relações do cotidiano.
A advocacia desempenha um papel essencial nesse contexto. O advogado não existe apenas para ajuizar ações, mas também para orientar, prevenir litígios, negociar acordos e indicar o caminho mais adequado para cada situação. Muitas vezes, o melhor serviço prestado é justamente evitar um processo desnecessário.
Também cabe ao Estado estimular políticas públicas voltadas à educação para a paz e à difusão da cultura do consenso. A formação cidadã deve incluir habilidades como escuta, respeito às diferenças, negociação e cooperação. Uma sociedade que aprende a resolver conflitos de maneira equilibrada torna-se mais justa, mais eficiente e menos sobrecarregada por disputas judiciais.
É claro que há situações em que não há espaço para negociação. Violações graves de direitos, violência doméstica, discriminação, abusos praticados por agentes públicos ou privados e outras condutas ilícitas exigem firme atuação do Poder Judiciário. Nesses casos, a Justiça é indispensável e deve ser buscada sem hesitação. O desafio está em encontrar o equilíbrio. Nem toda divergência precisa ser transformada em processo, mas nenhum direito deve deixar de ser protegido quando efetivamente violado.
Construir uma cultura de diálogo não significa afastar a Justiça. Significa compreender que a verdadeira pacificação social não depende apenas das decisões dos tribunais, mas também da capacidade de cada cidadão de ouvir, compreender e buscar soluções responsáveis para os conflitos da vida em sociedade. Afinal, uma sociedade mais justa não é aquela que possui mais processos, mas aquela que consegue resolver seus conflitos com mais diálogo, respeito e consciência de seus direitos e deveres.

Maria Luiza Gonçalves Gomes
Advogada e presidente da
37ª. Subseção da OAB-São João da Boa Vista




