As telas estão roubando nossos sonhos

Sinto falta do tempo em que as telas nos faziam sonhar acordados.

Lembro-me nitidamente da impressão arrebatadora que senti ao assistir a O Anjo Exterminador do cineasta espanhol Luis Buñuel. Era ainda o Cine Avenida, muito antes de virar loja de departamentos. Ao final da projeção não conseguia me levantar da poltrona. Mal podia me mexer tão profunda havia sido a experiência de mergulhar em meu inconsciente através daquelas imagens. Imagens saídas do território dos arquétipos que à arte sempre coube visitar. E emulando o comportamento das personagens na tela, eu também não conseguia deixar a sala de cinema.

Entretanto, a presença ubíqua e a multiplicidade de telas que nos envolvem atualmente, parecem realizar um movimento contrário. Apresentam dinamismo oposto. Ao invés de conduzir a uma imersão mais aguda em nós mesmos, nos afastam de nossos mais preciosos panoramas internos e impedem os devaneios oníricos tão necessários ao equilíbrio da psique. Hoje, estas telas invadem nossos momentos mais íntimos como os momentos de sono e devaneios, diminuindo drasticamente a qualidade do sono e, consequentemente, nossos sonhos estão sendo roubados.

Carl Jung e Sigmund Freud, respectivamente fundadores da psicologia complexa e da psicanálise, divergiram em várias coisas, menos na importância fundamental dos sonhos. Décadas depois, a ciência confirma o que esses gênios descobriram. No livro O Oráculo da Noite, o neurocientista Sidarta Ribeiro, elabora uma narrativa instigante sobre a ciência e a história do sonho, articulando informações históricas, antropológicas, psicanalíticas e literárias com as referências mais atualizadas da neurociência. Ele demonstra como os sonhos eram importantes às civilizações antigas — como no Egito e na Grécia — e como as culturas ameríndias preservam exemplos notáveis de profecias oníricas capazes de guiar povos inteiros. Os sonhos são essenciais para a vida mental – costuram memórias e emoções ajudando a mente a criar sentido – estabelecem uma conexão com nossas origens mais profundas construindo um possível percurso entre a mente e a matéria do universo que nos constitui.

Ao questionar os limites da condição humana, o escritor de ficção científica Philip K. Dick escreve o romance Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? — Esse título não traz uma questão ingênua. Ela é quase filosófica. Não por acaso, é o livro em que se baseia o filme Blade Runner que, por sua vez, traz no centro da narrativa outra questão urgente: o que nos torna humanos? Nas entrelinhas a resposta passa pela nossa capacidade sonhar. Em uma de suas cenas mais marcantes, o personagem replicante Roy Batty lamenta, ao morrer, que todos os seus sonhos se perderão “como lágrimas na chuva”. É um lamento que reconhece a diluição de sua essência com a perda dos seus sonhos. De certa forma, ele estava ecoando as palavras de Próspero, considerado o alter ego de Shakespeare na peça A Tempestade que, muito antes de qualquer psicólogo já sabia: “somos da mesma matéria que os sonhos são feitos; e a nossa curta existência é circundada pelo sono”.

Ao perdemos nossos sonhos, corremos o risco de nos perdermos de nós mesmos.

Ronaldo Marin é físico,
humanista e shakespeareano

COMPARTILHAR

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here