Por Marly Camargo
Cadeira nº 6 – Patrono: Mário Quintana

Tal como a imensa maioria das pessoas, eu não fujo à regra: tenho, sim, perfil nas mídias sociais e, quando me sobra um tempinho, gosto de acompanhar as postagens de amigos. Nesses meus raros momentos, reparei num amigo em especial, que é poeta. Pelos sonetos e fotos, percebe-se nitidamente o quão sensível ele é – o que aumenta ainda mais a saudade infinita que tenho de outro amigo, Nino Barbin. Trovador e gentil, Nino foi e é uma ‘peça’ importante no quebra-cabeças da minha vida. Espécies raras, esses amigos que mencionei são especiais por um motivo: sabem enxergar a poesia escondida no cotidiano! A poesia diária, que se expressa na beleza de um pássaro, no aroma de um café coado na hora, na visão do nosso famoso crepúsculo e até na figura de um cidadão apressado pela rua, para chegar sabe-se lá aonde.
Dessa vez não vou citar o trecho, mas deixar a sugestão para que o leitor busque um texto de Cecília Meireles, “A arte de ser feliz”, no qual a autora (poeta também!) destaca a felicidade observável diante de cada janela, aberta em diferentes fases e locais da vida. Poesia é isso – vai muito além de um gênero literário e é bem mais complexa do que sonetos e versos livres. Poesia é um estado de espírito, é um olhar diferenciado para a vida, uma essência que não se encontra em qualquer ser humano.
O que há por trás daquela pipa, voejante em dias de vento? Há perigo e um cuidado extra com a rede elétrica! Mas há um céu infinito a ser percorrido por um dos poucos brinquedos que ainda resiste ao tempo dos joguinhos de celulares. Há a poesia de uma criança que se orgulha de empiná-la, como se também pudesse sair do chão por algumas horas. E há a própria construção desse brinquedo, com papel colorido, varetas, cola, linha…. e cujo nome varia em diferentes regiões do Brasil: pipa, pandorga, papagaio, maranhão.
Como admiradora confessa desta forma de se expressar, eu questiono o porquê das pessoas de hoje não gostarem de poesia – algumas até dão risada e debocham do assunto. Será que os corações se endureceram, pelo grau de violência que o homem atingiu? Será que ser romântico(a) tornou-se tão supérfluo e banal assim? Ou é o corre-corre diário que forjou “homens de lata”, como o de “O Mágico de Oz”, que almejava um coração?
Seja qual for o motivo, eu lanço aqui um desafio para os que gostam de ler minhas despretensiosas crônicas. Guarde um pouco o celular. Feche os olhos, respire fundo e tente se concentrar, primeiramente, em seu próprio corpo. Quantas possibilidades ele te proporciona? Ver coisas interessantes, conhecer novos lugares, fazer amigos, trabalhar, rir, estar em contato com a natureza. Ainda de olhos fechados, preste atenção nos sons que te rodeiam – de onde vêm? Qual é a intensidade deles? São sons da natureza, como o canto de pássaros, um trovão, o latido dos cães ou vozes de pessoas que passam na sua calçada? Feito isso, experimente refletir sobre esses detalhes tão corriqueiros – e reformule-os, como quem visa ressignificá-los. Certamente cada som carrega sua poesia particular. Poesia está em toda parte, por que não tê-la em nossa vida? É um aprendizado que nos conduz à felicidade, basta saber procurá-la.
Em homenagem ao Dia Mundial da Poesia (21 de março), dedico esta crônica aos meus amigos poetas.




