Por Marly Camargo
Cadeira nº 6 – Patrono: Mário Quintana

Em julho passado, passei por uma cirurgia e posso dizer que isso me fez refletir bastante sobre o quanto a presença dos meus alunos dá sentido à minha vida. Tendo escolhido a pedagogia por amor, exerço a profissão mesmo sendo aposentada e não me imagino fazendo outra coisa na vida. Sem dúvidas, essa é minha missão, o que me deixa muito satisfeita e agradecida.
Agora, mais um ano termina e final de ano é um tempo que – apesar das alegres expectativas das festas – carrega para mim uma mistura acentuada de sentimentos. Afinal, há outro ano que também se acaba: o ano letivo! E invade-me um emaranhado de sensações: de um lado, a satisfação do dever cumprido; de outro, a despedida daqueles tantos rostinhos com os quais convivi (e amei!) por cerca de dez meses. Será que iremos nos reencontrar? A saudade se antecipa e descortina aquele estranho medo de ser esquecida: até que ponto eles também vão pensar em mim daqui pra frente? Como serão aproveitadas as sementes que eu lancei em sala de aula? Coisas que só o tempo dirá e o destino… ah, não me permitem desvendar este amigo do tempo. É como diz a canção “Aquarela”, de Toquinho, “Nesta estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá/ O fim dela ninguém sabe/ Bem ao certo onde vai dar”. Aliás, aquarela é o que esses sentimentos da despedida do último dia de aula pintam em nossa mente – cores alegres ou tons mais frios, de vivências festivas ou difíceis, se embaçam e misturam pelas lágrimas… mas o resultado é sempre um quadro gratificante.
Se deixaremos lembranças em nossos alunos? Creio que é como Saint-Exupèry descreveu: “Cada pessoa que passa em nossa vida, passa sozinha, mas não vai só, nem nos deixa sós – leva um pouco de nós mesmos e deixa um pouco de si mesma”. Sim, e “essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso.” Compreendo que, logicamente, todos os meus alunos e eu não nos cruzamos por acaso e, mesmo que seja pouco o que levaram de mim, isso é o suficiente para sentirem saudades. Aquela brincadeira de palavra-puxa-palavra, em que uma pessoa começa dizendo uma e a outra continua com outra que a anterior lhe trouxe à cabeça (por exemplo: pato – lago – água) funciona muito bem quando o assunto é a nossa memória. Uma recordação puxa outra, quase sempre da mesma época e, quando nos damos conta, muitas lembranças estão a reacender chamas que estavam adormecidas até então.
Quando mais um ano termina – este veio com a surpresa de uma cirurgia – espero que eu tenha cumprido a contento a minha missão… e que, da parte do corpo discente, a recíproca seja verdadeira. Como professora, continuo a desejar a todos os que passaram pelas minhas aulas, ano após ano, um futuro promissor e muito feliz. E…“Vamos todos numa linda passarela / De uma aquarela/ Que um dia enfim descolorirá”.




