Vai-se o último ás da trinca alegre

O escritor Luis Fernando Verissimo morreu no sábado 30 de agosto, aos 88 anos. O professor de literatura da UFRS Luís Augusto Fischer, em artigo na imprensa, salientou que foram mais de 50 anos de escrita bem-humorada, “sem abandonar a sua posição no campo da esquerda reformista”. Neste mesmo O Município cheguei a escrever que Jô mais Millôr e Veríssimo formavam a trinca de ases do humor brasileiro, sendo que o único vivo na ocasião em que morreu Jô Soares (2022) era Veríssimo. Agora a trinca se desfez para tristeza de todos nós. Mas a alma chora e pede: “Tristeza, por favor vá embora”. Para afastar a tristeza, republico hoje parte do que escrevi em 2022:

Filho do escritor Érico Verissimo, Luís Fernando não se encolheu à sombra do pai famoso. Ao contrário, até o superou, não diria em qualidade literária (pois as comparações nesse campo são sempre inúteis e mesmo tolas), mas em versatilidade artística e em produtividade. Versatilidade: além de escritor de romances, contos, peças de teatro, crônicas, novelas, relatos de viagens e literatura infantil, Luís Fernando Verissimo é também cartunista, tradutor, roteirista de tv, teatrólogo, publicitário e músico. Produtividade: é autor de algo como oitenta títulos publicados, muitos deles com várias reedições. Nascido em 1936, é o único vivo da trinca alegre da cultura artística brasileira, sobre a qual tenho escrito e que inclui Millôr Fernandes (1923-2012) e Jô Soares (1938-2022).

Sua marca em tudo que escreve, desenha, fala, em tudo que pinta, atua ou toca – sua marca é o humor. Um humor inteligente, penetrante, fino, crítico. Um humor que realiza aquilo que esperava Eça de Queiroz: a mudança dos costumes e da sociedade pelo riso. “Ridendo castigat mores” – rindo se castigam os costumes, dizia Gil Vicente nos seus autos, satirizando comportamentos. Esse humor que vai fundo na vida humana explodiu com o lançamento, em 1981, do livro de Verissimo “O Analista de Bagé”. O personagem então lançado era um psicanalista que juntava a sofisticação analítica de Freud com a rudeza do gaúcho da fronteira. A terapia usada para a solução dos mais fundos desajustes de comportamento, para as mais lancinantes dores da alma, para os mais derretidos choros – era o joelhaço! Um golpe de joelho na mais infeliz criatura resolvia todos os problemas. O paciente saía assoviando, alegre da vida. Mais alegres ainda ficavam seus leitores, que desatavam a rir e trancavam qualquer tristeza a sete chaves no fundo do armário.

Se, com o analista, Verissimo usou seu talento literário humorístico na área psicológica, nos seus outros personagens (e são muitos) a crítica ridente entrou pelo campo da sociologia, da política, da economia, da arte, do viver cotidiano e até da filosofia. E não é que nosso ás de ouros das letras engraçadas move-se com leveza e agilidade até mesmo nas cavernas platônicas, nas finas equações lógicas de Leibniz, nos arcanos quase inacessíveis do ser, de Aristóteles a Heidegger? Pois é. Chegou mesmo a ser eleito o “Homem de Ideias” em 1995. Sua desassombrada atuação contra qualquer tirania ou ameaça à liberdade valeu-lhe, em 1996, a medalha “Resistência Chico Mendes”, conferida pela ong “Tortura Nunca Mais”. Sua penetração no imaginário popular deu-lhe, nesse mesmo ano, o prêmio “Formador de Opinião”, pela associação das empresas nacionais de relações públicas. E a liga dos escritores, a UBE, premiou-o em 97 com o “Juca Pato” na categoria “Intelectual do Ano”.

Verissimo cantou tudo com sua escrita alegre. Não contente com o mover da pena, cantou também com o vibrar da palheta soprada de seu saxofone, atuando no grupo “Jazz 6”. Como não podia ficar, nem na música, sem fazer piada, lascou esta sobre seu grupo: “é o menor sexteto do mundo”. Claro: era o único sexteto não com seis, mas com cinco instrumentistas.

Luís Fernando Verissimo partiu para a crônica. Textos curtos com longas reflexões. Nos campos abertos da imprensa ou no recôndito do livro. Lindas crônicas.

Tiro ao acaso da estante três livros, por sinal representando três gêneros literários, começando pela crônica: “As mentiras que os homens contam”. A criatividade se mostra já na assinatura do autor: “Ver!ssimo”. É isso mesmo, com “!” em vez de “i”. O segundo livro que tenho à mão é um romance, “O Jardim do Diabo”. Do curto, Verissimo parte para o longo texto. Sempre com a mesma arte, o mesmo estilo leve e bem-humorado, sem sair dos cânones do romance. E enfim um livro de contos, “Os últimos quartetos de Beethoven”. Na orelha o editor apresenta o que se lerá no miolo: “Amor, sexo, relacionamentos, obsessões, violência, morte, tem de tudo aqui, em histórias ligeiras…”.

Sérgio Castanho é escritor, professor de filosofia e história da educação na Unicamp, ex-secretário de cultura de Campinas e titular da academia ACL e do instituto histórico IHGGC

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