O último registro

Por Luciana de Andrade Ferreira Gomes
[email protected]

Dizer que o mundo hoje é digital soa como chover no molhado. A vida acontece no toque da tela, nos registros instantâneos, nos aplicativos que nos lembram até de respirar. Mas, quando perdi meu celular numa cachoeira, foi mais que uma chuvinha. Foi uma tempestade!

Era um dia de inverno com alma de verão. O sol apareceu cedo, aquecendo a pele e o coração. Saí com uma amiga querida para um dos meus lugares preferidos, pedalando pela Serra da Mantiqueira como quem atravessa um cenário pintado por mãos divinas. O cheiro dos eucaliptos no caminho, as primaveras floridas enfileiradas como bênçãos; tudo parecia conspirar pela paz.

Paramos. Respiramos. Registramos. E ali, entre clique e contemplação, lembrei de Espinosa; o Deus de Espinosa…” Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nas praias. Aí é onde eu vivo e expresso o meu amor por ti…”

Senti a alma plena. Agradeci em silêncio. Coloquei o celular num lugar seguro, numa bolsinha presa no guidão da bicicleta com o zíper bem fechado e seguimos.

Na chegada, tudo era harmonia: café quente, doce de leite, queijos de búfala… Que quase faziam a gente esquecer do tempo. Mas, a natureza ainda tinha mais a mostrar. A cachoeira nos chamava e as búfalas no meio do caminho, nem foram obstáculo; mesmo que lá perto da cachoeira uma parte da cerca, nos deixava frente a frente com elas!!

Chegamos. Lá estava ela: majestosa, linda!!! Um pedaço vivo do divino!

E, de novo, Espinosa ecoava:

“Para de tanto ter medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem te castigo. Eu sou puro amor.”

Tiramos os tênis. Fomos caminhando sobre as pedras, com o coração leve e os olhos cheios de gratidão. O celular, mais uma vez, saiu do bolso. Mas, dessa vez, escapou das minhas mãos e caiu; literalmente, na correnteza que eu tentava fotografar.

Foi rápido. Muito rápido. Um segundo de descuido, um mergulho inevitável. Entrei na água. Gelada no início, mas depois mais que suportável. Procurei com os pés, com as mãos, entre pedras e galhos… Nada!

Respirei fundo. Aceitei.

Deixei que ele ficasse ali, no fundo da cachoeira, com os registros dos últimos seis meses que, por falha humana (ou divina), não tinham backup.

Voltei com a alma molhada, mas não pesada. E refleti: tudo que tem solução, não deve ser problema!!

Ao meu lado, o parceiro da vida me lembrava que estava comigo em todos os momentos e me ajudou com um novo celular…..Uma nova chance de registrar, escrever, seguir…

Afinal, a tecnologia é maravilhosa! Mas falha, como nós!

E por isso sigo assim: fazendo backup do que importa. Aceitando o que não posso mudar. Desapegando do que não é essencial. E agradecendo, sempre, os amores da minha vida!

COMPARTILHAR

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here