Coisas de quem só sabe escrever

Mário de Andrade, o imenso poeta que foi o centro do modernismo no Brasil, tinha um “defeito” que assumia publicamente: o de abrasileirar tudo e todos em sua literatura e em sua poesia, em seu ensaio e até nos bilhetes que escrevia aos amigos. O abrasileiramento era como que um eixo de sua personalidade. Aplicava-se a toda situação que ele comentava ou sobre a qual escrevia. Ao escrever sobre Macunaíma, “o herói sem caráter”, a figura narrada era a de um brasileiro. Mas não era obrigatoriamente alguém nascido em Botucatu ou em Palmeira dos Índios. Era um brasileiro não juridicamente, mas psicologicamente.

Estou lendo o livro que Luiz Carlos Borges me trouxe com dedicatória da autora quando, ainda atado ao leito, recuperava-me de cirurgia do quadril. Genial: “Mário de Andrade lê padre Jesuíno do Monte Carmelo”, de Maria Sílvia Ianni Barsalini. A autora deu início aos estudos sobre Mário pesquisando e publicando sobre o barroco latino-americano e chegando ao barroco mineiro e paulista. Dessa pesquisa, Mário publica em 1928 “O Aleijadinho e sua posição nacional”. E é também dessa fonte que Maria Sílvia capta os elementos de sua dissertação de mestrado na Unicamp.

Não parou no barroco mineiro e na obra do Aleijadinho a busca de Mário de Andrade. Ampliando o estudo do barroco, chegou ao trabalho artístico de outro mestiço como ele, o padre Jesuíno do Monte Carmelo. Sempre no encalço andradiano, Maria Sílvia se deslumbra com a nova descoberta do poeta modernista. No capítulo 5 de seu livro ora em foco, intitulado “Uma descoberta instigante”, ela “revela as surpresas que Mário encontra na arte barroca paulista”. Tanto que em 1941 informa a Paulo Duarte seu entusiasmo “para escrever a biografia do frei Jesuíno do Monte Carmelo. De 1941 a 1945, seus últimos anos de vida, dedica-se a escrever sobre esse artista muito interessante que descobrira em Itu”. No capítulo 6, nossa autora vai narrando os artigos sobre Jesuíno na mesma ordem em que saem da pena de Mário de Andrade. Na medida em que avança vai crescendo seu desvario pela obra paulistana e ituana de frei Justino. Em um dos relatórios a Rodrigo Mello Franco de Andrade confessava Mário “ser Jesuíno um homem assustadoramente apaixonante”.

Por último, no sétimo capítulo, com o interessante título “Jesuíno e Mário, a ficção se mescla à história”, Maria Sílvia “elabora de maneira apaixonante o clímax de Mário ao se sentir autor de uma biografia diferenciada”. Ela se pergunta: “Como aceitaria o pesquisador rigoroso ter gestado uma biografia híbrida, com lacunas na documentação e impregnada de imaginação?” Não há uma resposta clara a essa indagação. Como leitor fervoroso de Mário, eu diria que o pesquisador dá passagem ao poeta e ambos louvam a história e a arte.

Coisas de gente que só sabe escrever, acrescentaria eu. Como, por exemplo, o brasileirismo de Mário. Ele que diz não preferir um turco a um brasileiro e que essa questão lhe é indiferente, também diz que lhe faz muito bem o abrasileiramento de tudo e de todos na sua literatura. Vai entender essa gente feita de letras!

Sérgio Castanho é pesquisador e professor de História da Educação na Unicamp e titular do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas e da Academia Campinense de Letras (ACL)

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