Por Marly Camargo
Cadeira nº 6 – Patrono: Mário Quintana

Nos dias de hoje, não tenho tempo para acompanhar novelas, mas sempre ouço algum comentário ou vejo, em intervalos da programação, as chamadas das produções atuais. Pelo que observei, “Beleza Fatal”, do canal por assinatura Max, até recebeu elogios. Além de um elenco composto por nomes consagrados – como Camila Pitanga, Giovanna Antonelli e Caio Blat – soube que o fato de ter poucos capítulos no total agradou ao público – já que a trama não ficou “arrastada” e se resolveu de maneira objetiva.
Porém, mesmo não sendo noveleira, é impossível ficar alheia às críticas constantes e negativas a respeito da quantidade de remakes que a sexagenária Globo tem veiculado em sua programação. O alvo atual é “Vale Tudo”, que divide opiniões, tendo quem goste e os que não suportam. Infelizmente, essa onda de remakes já vem de longe: “Selva de Pedra”, “Irmãos Coragem”, “Anjo Mau”, “Cabocla”, “Sinhá Moça” e “Paraiso” são algumas que, pelo que me lembro, já passaram por isso. Um detalhe que, a meu ver, certamente deve ser o principal fator para essa “hora e vez” dos remakes é que o mercado televisivo enfrenta uma expressiva carência de bons autores. Sim, Janete Clair, Dias Gomes, Ivani Ribeiro, Cassiano Gabus Mendes e Gilberto Braga – todos com um dom inigualável de criar histórias e personagens inesquecíveis – jamais encontraram substitutos à altura. Por mais que tentem, os autores de agora nunca serão equiparados a esses nomes que tanto marcaram a história da teledramaturgia brasileira. Eles, os consagrados, faziam com que as famílias sentissem vontade de parar tudo e se posicionar frente à TV, com os corações repletos de amor, ódio ou expectativa para descobrir quem matou Salomão Hayala, com quem a Viúva Porcina ia ficar no último capítulo de Roque Santeiro, se João Gibão ia, afinal, levantar voo sobre Saramandaia, dentre muitas outras cenas emblemáticas, que mexiam com o imaginário geral. A sensação era prazerosa e se transformava em agradáveis conversas, fosse no ambiente de trabalho, nas reuniões familiares… eram outros tempos! Tudo isso só era possível porque esses autores tinham mentes muito mais que criativas: eram sensíveis, comprometidos com a qualidade do que entregavam e até mediam as consequências que seu trabalho teria na realidade das pessoas que paravam diante da TV. Gilberto Braga, por exemplo, chegou a revelar em entrevista que, ao escrever uma cena de racismo para “Corpo a Corpo”, refletiu muito, durante dias, sobre como a mesma seria recebida pelo público. Isto, sim, era fazer novela.
Já, hoje, os autores tentam e talvez até se esforcem, mas não alcançam êxito nem para adaptar remakes. Tristes tempos… talvez um reflexo na forma como consumimos cultura. Resta-nos esperar as “cenas dos próximos capítulos”.




