“A vida é o caminho sem retorno das nossas opções”, disse o filósofo e nosso amigo Sigrist citando o francês Charles Péguy. O mesmo José Luiz Sigrist continua: Somos o que fazemos, somos as nossas opções que não têm retorno. Não podemos apagar passo algum da nossa caminhada. Eles nos marcam, nos definem. Viver é responder aos desafios que o tempo nos faz, responder às perguntas que os outros nos fazem ou que nós mesmos nos fazemos. Dessa forma nós vamos nos construindo e edificando a nossa própria história.
O que me remete a Fernando Pessoa: “Tantas vezes pensei ter chegado, mas descobri que era apenas mais um ponto de partida”. A cada passo, uma chegada. Até o último dia de nossas vidas. E isso vale para toda e qualquer pessoa. Pensando e voltando várias vezes a essas reflexões encontro e releio um livro indispensável para entender alguém tão mal compreendido: Cartas a Theo, de autoria de Vincent van Gogh. Organização de Jorge Coli e Felipe Martinez, este último também tradutor do holandês e do francês.
São 506 páginas, nas quais predominam cartas de Vincent para seu irmão Theo. Uma preciosidade conhecer Van Gogh detalhadamente graças a essas cartas. As cartas nunca são superficiais. Mostram um espírito inteligente e lúcido. “uma lucidez que paira até o último momento de sua vida sobre todas as crises existenciais e mentais pelas quais passou”. Van Gogh escrevia em três línguas: holandês, (sua língua nativa), em francês e em inglês.
Vincent van Gogh, filho do reverendo Theodorus van Gogh e de Anna van Gogh-Carbentus, trabalhou numa filial holandesa de uma galeria de arte. A família Van Gogh sempre se interessou pelo mundo da arte. Vincent trabalhou como comerciante de arte, em seguida tentou ser pastor, como o pai, não dando certo; consegue ser evangelizador num distrito de mineradores na Bélgica, com trabalhadores em condições miseráveis. Também fracassa. Ali, aos 27 anos pensa que tornar-se artista é o único caminho num mundo em que parece não haver lugar para ele.
Depois vêm anos de formação, aulas na Academia em Bruxelas, Haia e em seguida parte para a Antuérpia.
Sua evolução é segura, começando com o desenho da figura humana, depois a perspectiva. São três anos nesse estudo até pegar no pincel. Começa usando o colorido severo, o negro acabando por produzir O comedor de batatas, 1ª obra prima. Indo para Paris, descobre a cor, tornando-se um colorista inigualável. Em Arles, pode-se ver a estrutura clássica de suas composições, por exemplo, com os quadros: A ponte de Langlois; Visita de Saintes-Maries; Pôr do sol em Montmajour.
As cartas mostram que ele tinha uma clara consciência de que o momento em que vivia era de renascença das artes, valendo o sacrifício de segurança material e mesmo de vida. Ele não viveu miseravelmente, porém de modo estreito. A questão do dinheiro voltava sempre: custos de telas, de tintas, sempre fazendo que o irmão gastasse pouco. As cartas permitem antever que a aposta no futuro era também financeira. Desde que começa a pintar, não há mais dúvidas nem tentativa e erro.
Em Arles ele planeja uma cooperativa de artistas, tendo por base seu ateliê imortalizado na pintura A casa amarela. Paul Gauguin, previsto para ser o líder, desiste. Os planos fracassam.
Em Saint-Rémy-de-Provence ele passou anos no asilo Saint Paul de Mausole, pintando obras-primas: A noite estrelada e Amendoeira em flor, dedicada ao sobrinho, filho de Theo.
No dia 23 de julho de 1890 van Gogh escreve a Theo uma carta não terminada e não enviada, encontrada no casaco de Vincent. Quatro dias depois se suicida com um tiro no peito, morrendo após dois dias.

Maria Eugênia Castanho, doutora em Educação pela Unicamp e membro fundador do IHGG de Campinas.

