Menino Feliz

O menino andava descalço na terra de chão batido no sítio do avô que ficava no pé da serra. Lá juntava sempre a família no trabalho e nas festas. A numerosa família contava “causos” e falava muito sobre a natureza. O contato com o meio natural dava base ao crescimento do menino que sonhava em ser algo além daquele universo de simplicidade. O menino cresceu!  Foi morar na cidade grande e lá descobriu um mundo gigante: os arranha céus, os paredões de concreto, os inúmeros carros pra lá e pra cá, a poluição sonora e o vaivém das pessoas que não se conhecem e ficou encantado. Passou a frequentar muito pouco o sítio até se distanciar totalmente do meio natural.

O avô morreu feliz em ver o neto entrar na faculdade. Na cidade, o menino descobriu que não só o mundo era grande, mas o planeta era enorme e cheio de dissonâncias. Na vida que ele estava agora, aprendeu que os rios não corriam mais somente nos cursos naturais, que as mesas de escritórios não eram feitas só de plástico, que a luz não era de lampião, que os alimentos não estavam na terra fresquinho e a água de beber não vinha da mina. Ficou confuso e começou a se questionar e depois questionar o desenvolvimento. Ele se perguntava: como podem jogar tanto alimento fora? como pode ter enchentes nas cidades? como pode as pessoas passarem fome? como pode ter tanta desigualdade? Certa feita, seu pai ligou com a voz embargada pedindo que tomasse conta do sítio pois ele havia adoecido. Aquele “menino feliz” disse, prontamente, que jamais tomaria conta daquilo e que, agora ele iria lutar pelos direitos dos animais, queria proteger a natureza e que era um absurdo como as pessoas estão fazendo com o meio ambiente.  Disse ao pai que não poderia visita-lo pois estava embarcando para a Conferência Mundial de Meio Ambiente na Europa para defender os direitos dos povos primitivos e que era um absurdo que estavam fazendo com a Amazônia, Pantanal e todos os biomas. O sítio ficou abandonado… o café, a horta, o gado de leite foi ficando para trás. O mato tomou conta de tudo. Chegou as grandes empresas e compraram o sítio para plantar monocultura e a mina secou. O menino casou e se tornou um ambientalista importante e passou a dar palestras de como cuidar da terra, como preservar as nascentes e passou a ser um ferrenho protetor das florestas. Todo ano ia nos comitês de meio ambiente pelo mundo afora, cheio de jantares chiques, uma “comidaiada” sobrando nos pratos e um monte de amigos que sabiam de tudo, menos que o menino teve os pés no chão do terreiro simples.  O menino já não era mais tão feliz pois, lembrava de tudo que passou na infância e que, mesmo sendo um Doutor em ambientalismo, ele nunca mais pisou na terra.

 

Plínio Aiub

é médico veterinário especializado em animais silvestres

COMPARTILHAR

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here