Como manda a etiqueta

Por Mariana Mendes De Luca | @marianamdeluca

Um homem e uma mulher estão em um restaurante e juntos escolhem um vinho para fazer o pedido. O garçom chega, apresenta o vinho ao homem e ele o prova, logo em seguida faz um sinal com a cabeça para que os sirva. O garçom vai até a sua acompanhante, a serve e em seguida, faz o mesmo ao homem.

A cena é clássica e a pergunta também: por que em um restaurante é o homem quem prova o vinho?

Embora comum, essa cena não é uma regra, mas a resposta dela é! Como no mundo do vinho as métricas são diferentes, eu vou te contar uma boa história.

Na Europa medieval, uma maneira muito comum de assassinar um inimigo era por meio do envenenamento. O veneno era colocado nas bebidas e para evitar que fossem envenenados, os reis e os nobres tinham servos que as provavam antes deles, nos casos em que estavam adulteradas, salvavam a vida da alta corte e perdiam as suas.

Depois de muitos morrerem, esses servos começaram a entender que era possível notar uma diferença na cor e no aroma da bebida envenenada antes de prová-la, desenvolvendo melhor os outros sentidos, como visão e olfato, para entender a bebida em taça. Foi assim que surgiram os sommeliers.

Na atualidade, o homem prova o vinho antes da mulher assim como faziam os servos antes das mulheres de alto status da época, para preservá-las de qualquer incidente.

A tradição se manteve, mas hoje em um contexto bem diferente, se unificou às regras de etiqueta, que preservam ao homem a função de fazer o pedido ao garçom e ao chegar com a garrafa em mãos, é sugerido que o garçom a apresente para aquele que fez o pedido.

Existem situações, como em mesas com muitas pessoas, onde o garçom pergunta quem irá provar o vinho, aquele que se prontifica a colocar seu paladar em risco faz um ato de gentileza visto que, a prova prévia se faz necessária caso o vinho possua algum defeito.

Por isso é plausível, que no contexto dito no início, o homem a faça, pois se o vinho estiver estragado e em aroma não for notado, preservará o paladar da mulher quando ela for prová-lo.

Neste caso, o ato é de cavalheirismo.

Ainda nesse contexto, ao fazer a prova do vinho, a dúvida que fica é: Quando devo devolver o vinho?

Em momento algum a devolução do rótulo provado é por motivo pessoal, ou seja, porque não gostou do vinho.

A devolução acontece quando o vinho possui algum defeito. Ele pode ter sofrido alguma superexposição à luz natural, ter tido uma variação de temperatura ou ainda o armazenamento errado pode ter possibilitado a entrada de ar dentro da garrafa.

Na maioria desses casos já se notam os defeitos no aroma. Cheiros como papelão molhado e mofo são comuns quando o vinho está com defeito e que nem sempre é notado antes de abrir a garrafa, mas após aberta, o defeito pode ser reconhecido com facilidade.

São nesses, apenas nesses momentos em que o vinho pode (e deve) ser devolvido ao restaurante. Ainda assim, algumas pessoas, por falta de conhecimento (e de elegância) no momento da prova, por não gostarem do rótulo escolhido, pedem a troca do vinho com argumentos diversos, cabe sempre ao restaurante escolher a postura a ser adotada diante da situação constrangedora.

A verdade é que o vinho está presente na maior parte da história, com isso muitos hábitos que temos hoje ao prová-lo teve origem lá atrás. E é justamente por ser um hábito antigo da humanidade que se provar um vinho vem carregado de ações em que na época, era considerado cavalheirismo e hoje pode ser entendido como tal, apesar da evolução da sociedade.

Por isso, um brinde às boas companhias que nos acompanham com elegância e até A Próxima Taça.

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