À medida que a população aumenta, a mancha urbana avança, os tabuleiros de plantação de comida são necessários e conflitos socioambientais se apresentam! Dividir espaço com os animais é inevitável com a expansão humana. Como lidar com isso harmoniosamente?
Deparar com casos de feras devoradoras de homens nos remete a um passado evolutivo onde fazíamos parte da cadeia alimentar. Pode ser difícil aceitar, mas a relação de uma fera de frente a uma vítima humana pode trazer a sensação mais próxima de autoconsciência do nosso lugar na terra.
Os ataques de animais, especialmente os grandes felinos, mais especificamente a onça-pintada (Panthera onca) podem ser classificados como: “provocados” – que são aqueles quando se encurrala um animal, chega próximo de suas crias ou comida ao ponto de despertar a reação do animal baseada em defesa e proteção ou, ainda a possibilidade de o ataque ser por consequência de doenças crônicas com sinais de stress ou específicas como a raiva, por exemplo; e, os “não provocados”- que são os “pensados, sondados, estudados”, onde o animal não se intimida com a presença humana e passa a vigiá-lo como possível alimento.
Confirmados no Brasil, existem apenas poucos casos de ataques “não provocados” que envolve abate, consumo ou dilaceração da vítima: dois casos, um em 1992 e outro em 2001, em Carajás no estado do Pará que foram por onça-parda (Puma concolor). Registros de turistas, vaqueiros e pescadores no município de Cáceres, no Mato Grosso/Pantanal também já foram confirmados. Os ataques “não provocados” tem um contexto com requinte de detalhes que encorajam o animal a fazer tal predação. Ceva, descuido e áreas sob pressão fazem despertar o interesse pela presa humana.
Não há exatamente um nome aos predadores comedores de gente. Podemos acreditar que são um tipo de alfa predadores, que extrapolam as fronteiras zoológicas e se agrupam sem ser por uma base taxonômica ou ecológica que justifique uma “mutação genética”, a existência do comportamento é psicológica e por tal, o ambiente e o comportamento podem favorecer o gatilho.
Nas florestas, esses animais dividem seus recursos alimentares com a população ribeirinha ou nativa que, caçam por sobrevivência muitas das presas desses predadores. Restos de alimentos, barrigadas de peixes limpos na beira do rio e a prática de ceva no turismo fotográfico tem sido ponto de discussões dos órgãos responsáveis. O Ibama possui uma cartilha sobre conflito de fauna com pecuarista que traz muita luz ao assunto.
Os especialistas tendem a avaliar situações de ataques apenas pelo âmbito ambiental, mas as diversas faces do conflito de ataques devem ser melhor analisadas, inclusive sob a face econômica e social.
É preciso entendermos que fazemos parte do reino animal, que dependemos das florestas para termos biodiversidade a qual equilibra todo ecossistema onde vivemos. O entendimento do pertencimento a mãe natureza dará a humanidade outro rumo. Sem desmerecer toda história teísta sobre a criação do homem, a possibilidade de sermos apenas uma comida traz toda a humildade do nosso corpo em relação a terra, a alma e ao espírito.
Não é a tecnologia ou todos os instrumentos que possibilita o crescimento, mas sim o autoconhecimento e a mansidão sobre vigília dentro do todo.

Plínio Aiub é médico veterinário especializado em animais silvestres

