Autoridades negras num país esbranquiçado

Um jornal torna-se cada vez melhor pelo seu corpo de jornalistas, de colunistas especializados, de articulistas de seu quadro ou colaboradores, todos coordenados por editores talentosos e bem formados. Esse excelente time profissional da própria casa completa-se com material editorial de fora. É o caso da Agência Senado, que produz matérias de esmerado nível de redação com base em aprofundada pesquisa, geralmente feita no próprio arquivo do Senado.

Vem ao caso comentar a matéria fornecida pela Agência Senado e publicada na imprensa recentemente com o título “Conheça os senadores negros que a história apresentou como ‘brancos’”, tendo o subtítulo “Levantamento do ex-senador Abdias Nascimento, falecido em 2011, desvelou as origens afro de figuras como Tancredo Neves e Rodrigues Alves”.

Interessei-me pela notícia por inúmeros motivos, entre os quais minha posição intransigente contra todo tipo de preconceito – racial, de classe social, de nacionalidade ou regionalidade, de aparência física, de gênero ou qualquer outro aspecto que reduza a grandeza do ser humano a uma qualquer característica individual. Desde os tempos de estudante universitário interessei-me pelo personalismo de Emanuel Mounier. O conceito de “pessoa” desse notável pensador é um escudo contra toda e qualquer agressão à dignidade do ser humano.

Em razão disso, tenho escrito nas minhas crônicas ou em artigos opinativos esparsos, textos em que, por um lado, defendo a pessoa na sua inteira dignidade e, de outro lado, mostro que não há nenhum problema de discriminação quando um escritor descreve um personagem negro em situação de trabalho que a sociedade da época considera uma ocupação menos nobre. Assim, defendo Monteiro Lobato ao descrever a negra tia Nastácia trabalhando na cozinha. Não vejo nisso racismo. Trata-se apenas do contexto cultural em que a criação literária se deu.

Igualmente, na matéria em foco sobre senadores negros que se escondiam sob a capa de brancos, não vejo qualquer problema de preconceito. Ao contrário, considero a divulgação dessas ocultações raciais como positivas para se aceitar a diversidade racial. É mais que chegado o tempo de se considerar como positivo um negro ser presidente da república, como foi Rodrigues Alves no Brasil e Obama nos Estados Unidos. Altamente positiva a notícia recente de que uma mulher é a nova presidente do Superior Tribunal Militar.

Vamos à matéria propriamente dita. No discurso de posse no Senado, o ativista do movimento negro Abdias Nascimento, do PDT carioca, desmentiu com firmeza a notícia que então corria de que ele era o primeiro senador negro no Brasil. Não é verdade – afirmou Abdias – “antes de mim houve 22 senadores negros…”. Entre os senadores com sangue africano, sua pesquisa localizou Rodrigues Alves e Nilo Peçanha, que foram presidentes da República, e ainda Tancredo Neves, “que morreu antes de receber a faixa presidencial”. No Império eram senadores negros o Barão de Cotegipe e Zacarias de Gois e Vasconcelos, que chegaram a primeiros-ministros.

Ao tempo da escravidão, subiram à câmara alta seis parlamentares negros. Foram todos combativos na luta abolicionista. Mas houve um senador negro que se voltou contra a própria ascendência, o Barão de Cotegipe, para Abdias “o maior escravocrata que o Parlamento conheceu”, e, segundo Rui Barbosa, um “mulato envergonhado”.

José Renato Nalini, ex-presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, destacou do arrolamento dos senadores negros feito por Abdias Nascimento o nome de Francisco Glicério, considerado o “Pai da República”, filho de nossa região.

Vivemos novos tempos. A cor da pele pouco importa. O que se considera hoje importante é o valor humano da pessoa.

Sérgio Castanho

é escritor, cronista, doutor em filosofia e história da educação, professoar na Unicamp, titular da ACL e membro fundador da IHGGC

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