São tempos difíceis aqueles em que precisamos explicar a importância dos valores democráticos. E, diante de uma conjuntura mundial tão complexa, celebrar os 40 anos da redemocratização no Brasil é um alento para quem assiste à estarrecedora disseminação de práticas autoritárias mesmo em países que pensávamos ter democracias consolidadas.
Somente quem viveu sob a Ditadura é capaz de entender o que foram os anos de chumbo. Durante mais de duas décadas, o Estado cometeu crimes contra aqueles que lutavam pela liberdade de que hoje desfrutamos. Perseguição, tortura e morte eram o destino dos que ousassem discordar do pensamento oficial.
Os brasileiros que ainda hoje pedem o retorno desse período não têm consciência de que só podem fazê-lo porque a democracia lhes assegura o direito à livre manifestação. Acostumados com a liberdade de que não dispúnhamos, parecem não se dar conta de que, no Estado ditatorial que pregam, não poderiam permanecer ilesos ao defender posições opostas às do regime constituído.
Somos testemunhas da mais longa fase de estabilidade política da história deste país. Sobrevivemos a processos de impeachment, a ex-presidentes presos e a escândalos dos mais variados. Nada, entretanto, que nos preparasse para a recente e aterradora tentativa de ruptura institucional.
Atacadas por quem foi eleito para defendê-las, nossas instituições, entretanto, resistiram, demonstrando não só resiliência, mas também um admirável apego ao princípio da soberania popular.
Tamanho amadurecimento deve ser motivo de orgulho porque, embora a democracia não seja perfeita, ainda é o melhor regime político existente.
Ao se reorganizar dentro dos limites definidos pela Constituição e estabelecer direitos e deveres não só para os cidadãos, mas também para o Estado, o Brasil indicou o caminho a ser percorrido.
Devemos ser críticos, exigindo responsabilidade dos eleitos e fiscalizando os gastos públicos, mas não podemos tolerar retrocessos, flertando com o autoritarismo. Seja por aqueles que perderam a vida para que chegássemos até aqui, seja por quem ainda não percebeu a liberdade como um valor fundamental. Que não precisem se dar conta disso à custa do sofrimento de tantos. E a vigilância permanente é o preço a se pagar para que os erros cometidos no passado não se repitam.

Sidney Estanislau Beraldo é formado em Ciências Biológicas, Administração de Empresas e pós-graduado em Gestão Empresarial

