Uma lição de vida

Por Clineida Junqueira Jacomini
[email protected]

Em tempo de quaresma e de repensar sobre tudo! Que somos cinzas e a elas voltaremos! Simplesmente!

Estou viciada…na Sky e seus filmes; quase não assisto mais aos canais abertos…às besteiras! Novelas chochas, repetitivas, sem significado algum, que não me acrescentam nada! Depois dos 60 anos, temos o direito de escolher, mesmo não sendo Sophia. Assisti a um filme triste, mas muito verdadeiro. Seu titulo é o que marca essa minha página. A artista principal é a excelente Emma Thompson que protagonizava Vivian Bearing, uma professora universitária muito ligada à poesia e autores famosos como Milton, Byron, Shakespeare, John Donne… Aprendi muito com ele e suas poesias ligadas à morte. Vivian está sem cabelos, em fase terminal de um câncer uterino. Solteira, já na meia idade, é tratada com profissionalismo (e só ele), por um médico jovem, ex-aluno, que se lembrava dela e seu rigor quanto aos estudos, provas, notas… Mas a professora mudou. Recordava-se de seus tempos de jovem estudante e sua mestra também rigorosa e séria. Entre os delírios proporcionados pela morfina para lhe tirar as dores, recitava poemas de Donne, revia seus alunos, sua vida acadêmica …  tudo, enfim, que tinha valor para ela quando jovem e sã. Já em semicoma, apareceu para visitá-la a ex-professora, bem velhinha que voltara à cidade para o aniversário do netinho. Tinha comprado um livro de história infantil que passa a ler para a enferma: _ Era uma vez um coelhinho que queria fugir e sua mãe ao seu encalço, sempre o encontrava. Então, desanimado com tantas idéias de fuga sem conseguir realizá-la, o coelhinho resolveu ficar em sua toca e descobrir que ali também e sempre poderia ser feliz. Uma analogia a nós todos e à nossa vida quando Deus sempre nos encontra e nossa felicidade está somente em Seu seio amoroso. A velha mestra (Vivian nem a ouve mais!) então se deita ao seu lado e fica ali, marcando com sua simples presença física, o amor que estava faltando a ambas. Uma das enfermeiras, eficiente em seu labor, sempre vinha conversar com Vivian, não entendendo os poemas recitados, mas passando creme em suas mãos ressecadas pela doença insidiosa. Conta que quando a pessoa morria, a equipe do hospital tentava a toda força ressuscitá-la e que isso, sob sua ótica, era desnecessário, desgastante e inútil. Convence a doente então por optar pela não ressuscitação: NR. Morrer em paz, na hora aprazada por Deus é o mais certo e humano. Um dia o médico chega no quarto, nem olha a doente, pega na ficha ao pé da cama, checa tudo e só depois nota que ela já tinha morrido. Chama a equipe da hora terminal, que vem incontinente. A enfermeira diz a todos que não deveria haver esse esforço por vontade expressa da morta, mas ninguém a escuta, tão empenhados em ressuscitar quem já não estava ali, viva. Eram treinados para fazer isso.

Esse filme assás dramático nos mostra a impessoalidade do sistema de saúde mesmo que ele seja o mais completo e moderno; mostra que o simples passar de um hidratante é mais importante que todos os outros remédios; que a poesia e a literatura erudita cai por terra quando se trata da vida real; que há muita frieza nos tratamentos hospitalares; que é preferível morrer em casa ao lado de pessoas queridas; que a nossa vida tem que ser repensada, sentida e assumida… Enfim, refletir sobre o único grande problema existencial que é a morte.

Um dos poemas recitados era: “Oh! morte, que alguns dizem assombrosa e forte; não te orgulhes, não és assim; mesmo aquele a quem visastes o fim, não morre; não te vejo vitoriosa……

A própria Emma escreveu o roteiro baseada na obra Divino Poema de Donne, poeta e pastor inglês do século XVII que tem frases memoráveis: “Nenhum homem é uma ilha em si mesmo….” Por quem os sinos dobram? Eles dobram por ti!” e tantas outras.

COMPARTILHAR

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here