O jeito de ser sanjoanense

Sou um forasteiro em São João da Boa Vista. Cheguei aqui, vindo de São Paulo, em março de 2020, no início do terrível flagelo provocado pela pandemia de Covid-19. Desde então, tive a satisfação de conviver com inúmeras pessoas que nasceram ou residem em São João há bastante tempo. Essas excelentes interações me permitiram tirar algumas conclusões sobre o jeito de viver e, principalmente, de ser sanjoanense.

Assim como acontece em muitas localidades do interior de São Paulo, São João da Boa Vista é uma cidade agradável, bonita e receptiva. Entretanto, possui atributos de singularidade que a tornam, simplesmente, inigualável. Percebi que grande parte das suas ruas têm nomes de pessoas que aqui viveram, as quais são homenageadas pelo legado de contribuições significativas e dos bons serviços prestados à coletividade. As praças e os quintais das casas exalam o perfume acolhedor das muitas árvores centenárias que abrigam os ninhos dos passarinhos coloridos, exóticos e exuberantes que, cotidianamente, cantam e festejam o pôr-do-sol sob as luzes deslumbrantes dos crepúsculos maravilhosos.

E o que dizer do Seu João Mendonça? Ele é o típico morador que conhece todo mundo e que, de alguma forma, é conhecido por todos também. Acorda sempre bem cedinho, mas sem pressa, porque a vida em São João possui um ritmo próprio que desafia a urgência e a pressa dos dias atuais. Antes do sol esquentar, já fez exercícios na esteira, cumprimentou a vizinha, que varria a calçada, e jogou conversa fora com os transeuntes que passaram na frente da sua casa. Afinal de contas, a empatia deriva da boa prosa e a amizade é construída no diálogo com as pessoas que encontramos pelo caminho.

De tarde, Seu João Mendonça senta na varanda de casa, sempre ao lado da esposa Vergínia e da sua sogra Alzira. Juntos, conversam para ver o tempo passar. O vento traz cheiro de mato e um restinho de terra molhada da última chuva. Os três já viram muito da vida e, ao avistarem as pessoas que passam na rua, oferecem um presente: seu sorriso.

À noite, as ruas ganham um silêncio muito peculiar. As luzes amarelas dos postes piscam timidamente, e no céu, as estrelas exibem um brilho extraordinário. Por tudo isso e muito mais, dedico ao jeito incomparável de ser sanjoanense um poema de minha autoria. Espero que os leitores do jornal O MUNICIPIO gostem desses versos que procuram, de alguma forma, decifrar o enigma que faz de São João da Boa Vista um lugar especial para todos os seus habitantes, incluindo os forasteiros que aqui vieram para ficar.

Qual é o jeito de ser sanjoanense?

É o jeito diferente de gente singular

Que acorda cedo junto ao sol nascente

Com sorriso no rosto e brilho no olhar.

É o jeito de ser competente e peculiar

Diante dos contrastes da realidade

E do paradoxo de viver e sonhar.

É o jeito de reconhecer a solidariedade

Como mediação da própria vida.

É a inspiração que me faz escrever

Para o notável Jornal O MUNICIPIO.

É o jeito de superar óbices e desenganos

Quer seja no fim de tudo ou no princípio

De uma cultura popular que é permanente.

Sim, existe uma forma de semear a bondade

Com o propósito de colher a felicidade:

É o jeito recorrente, de ser sanjoanense!

Antonio Artequilino da Silva Neto

Doutor em Linguística, mestre em Educação, historiador, professor e escritor.

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