O futuro incerto dos bons vinhos em restaurantes

Por Mariana Mendes De Luca | @marianamdeluca

Em um almoço de domingo, escolhi um restaurante italiano para provar o que de melhor essa cozinha tem. A proposta de desmistificar as cantinas italianas é para mim um ato de ousadia que caminha por uma linha tênue entre o bom gosto e mais um restaurante “instagramável”, termo muito usado atualmente para se referir a ambientes fotogênicos que terão suas imagens compartilhadas nas redes sociais posteriormente (ou no mesmo instante).

E como arquiteta eu digo que no caso desse, o profissional responsável pelo projeto teve boas referências para resgatar o que um dia foi aquele local.

Junto dele, os responsáveis pelo cardápio conseguiram aliar técnicas e conhecimentos de um bom italiano, com um toque de contemporaneidade em cada prato servido.

A extensa carta de vinhos viajava pela América, África, Europa chegando até a Oceania, com vinhos que variavam entre R$ 160 a R$ 5.000, circulando entre alguns rótulos triviais.

A expectativa era alta e decidi que provaria mais de uma opção para acompanhar meu almoço, desde a entrada até a sobremesa, por isso optei por provar as opções que eram servidas em taças.

O garçom, um pouco confuso, foi até a cozinha e voltou com uma garrafa de vinho branco em mãos. Me dizendo que o único vinho servido em taça em um restaurante italiano, era um vinho chileno.

Lembra da linha tênue que eu comecei o texto sem economizar elogios ao restaurante? Acabou de ser rompida.

A ideia de se fazer um menu degustação com vinhos que acompanhariam o cardápio não me soa uma ideia muito original, pelo contrário, a depender do volume de comensais, é possível (e rentável) ser posta em prática.

Mas a realidade é que a busca incessante por originalidade está deixando de lado o que realmente importa, a qualidade.

Pedi para conhecer a adega e perguntei quais eram os vinhos mais vendidos. Em primeiro lugar disparado, segundo quem nos guiava, era um vinho de Minas Gerais produzido pelo método da poda invertida, técnica usada para a vinificação de vinhos nos estados de São Paulo e Minas Gerais. Em segundo lugar, o mais pedido era um Barolo, um vinho produzido a partir da uva Nebbiolo, na região de Piemonte na Itália (finalmente um italiano apareceu).

A diferença entre eles é que o brasileiro é marcado pelo seu alto teor alcoólico as vezes desequilibrando o vinho, enquanto o italiano possui seus taninos e sua acidez equilibradíssimos. Além disso, a garrafa da produção nacional custava R$ 160 enquanto a do antigo continente ultrapassava o valor de R$ 1.000.

A grande diferença de perfis e valores das garrafas me chamou atenção para uma reflexão: em terra de cerveja gelada, vale a pena desmistificar o mundo do vinho?

Ao que se tem visto, até valeria, mas os esforços não estão voltados para isso.

Seguir na confortável zona do trivial com o tradicionalismo dos vinhos servidos é o que verdadeiramente faz os donos sentirem que vinho não é um bom negócio.

Como o apelo pelo “instagramável” continua falando mais alto e a solução tem sido cartas longas que mostram confusão e desorientação na hora de formá-las, eu tive a sensação de que o importador passava por uma grande promoção e o dono do restaurante a aproveitou, provando que, de fato, a desinformação pode arruinar o seu negócio.

E se você ficou curioso: não, eu não tomei um bom vinho naquele dia, nem eu e nem todas as outras pessoas que ali estavam com sua cerveja gelada.

Sentindo que temos muito potencial para continuar essa conversa na mesa de um restaurante com um bom vinho em mãos, eu faço um brinde esperançoso e até A Próxima Taça.

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