Por vezes, nos pegamos falando, “ah, no meu tempo era diferente, fazíamos isso assim e assado. Hoje em dia, essas novas gerações não sabem o que é isso, aquilo outro e tudo mais”.
Já tentei interpretar isso tantas vezes! Essas mudanças de modos de ação de profissionais, mas somente a vivência acadêmica pôde me trazer melhor entendimento dessas “equações” de formas diferentes de gerações de profissionais agirem.
As coisas estão mais focadas e resumidas hoje. Não há mais espaço para alicerces, bases e histórias técnicas das profissões; o ensino está modulado e, muitas vezes, já colocamos, sim, o burro, na frente da carroça. O ensino hoje está focado no resultado financeiro. Ensina-se hoje,, independente de qual profissão for, como ganhar dinheiro; como otimizar resultados e como facilitar o trabalho. Acabou a simbologia do “pega casaco, veste casaco, pendura casaco” (analogia ao esforço de base apresentada no Filme Karate Kid, estrelado por Jackie Chan e Jaden Shith, 2010). O tempo está acelerado demais para mostrar que se constrói uma casa com um tijolo por cima de outro. Isso está ficando no passado, junto com a simbologia da história dos três porquinhos.
Algumas profissões são mais parecidas com sacerdócio do que com labuta. São profissões que, ao colocar essas siglas americanas, esses modelos de gestões e todo o estudo de otimização e valorização profissional, acabam conturbando o objetivo em si, do juramento profissional. Esses juramentos são elaborados com base em princípios éticos. E a ética está acima da gestão, do dinheiro e de qualquer coisa que não leve em consideração o respeito, o tempo e a honestidade da pessoa que exerce a função em benefício da sociedade que está inserida.
Os novos profissionais são reluzentes; têm capacidades e habilidades ótimas; fazem suas tarefas com rapidez e, muitas vezes, com muitos equipamentos de ponta. São astutos e sabem cobrar muito bem. Terminam o serviço e vão para casa contabilizar mais uma experiência bem sucedida, e sentem-se prestadores dos serviços que aprenderam a fazer. Já o velho profissional é lapidado; tem ótimas habilidades, mas em geral aprendeu-as com o tempo e sabe cada detalhe. Normalmente não precisa de muito para resolver seus desafios. Seu pagamento é sua própria satisfação em resolver problemas. E, ao chegar em casa, sente-se feliz por ter contribuído para a comunidade em que vive.
Temos os dois profissionais na praça e estamos vivenciando essa mudança de caráter e personalidade profissional muito impulsionada pelas tecnologias. O adolescente de hoje será o médico que vai abrir sua barriga em alguns anos; o juiz que vai decidir uma sentença sobre sua família; o engenheiro que vai construir o túnel que você passa para ir para o litoral. Enfim, esse novo profissional é que vai cuidar de nós. Os velhos profissionais são os que cuidaram até então, e a contribuição deles veio de um aprendizado de base e chegou até aqui subindo em cima de um alicerce. Viveram o que será feito pelos novos profissionais, sem recurso algum.
Nada nessa vida pode ser construída em cima de uma nuvem! E sim em cima de um alicerce cultural e técnico. E o que vai subir por cima desse alicerce pode trazer muitas novidades boas. Nem o “zóio crínico” e nem a fibra ótica, mas o bom senso sempre!

Plínio Aiub é médico veterinário especializado em animais silvestres

