Chronos, meu caro!

LUCINDA NORONHA
[email protected]

Última taça de prosecco do Natal. Na noite do dia 25 me pego observando aquelas minúsculas bolinhas de gás que sobem dos frisantes. Desafio aqui quem nunca se entreteve olhando pra elas alguma vez na vida. E o que passa pela cabeça do indivíduo nesse momento?

Começo a flertar com a hipótese de escrever as muitas ideias que transitam tão eufóricas quanto as tais bolinhas de gases emergindo.

Natal acabando, a gente faz o quê? Pensa em Réveillon. Nem era sobre planos do que fazer ou onde passar. Isso já estava programado e definido, embora se saiba que, num curto salto  de um ponteiro para o outro, tudo pode mudar. Mas acontece que também ando resistente à vaga possibilidade de certas ações que parecem ter datas marcadas para acontecer, como essa coisa toda de estabelecer metas para um novo ano. Uma imposição! Um novo ano que acontece do dia para a noite, da noite para o dia, na virada de um segundo. Tudo tão rápido que me parece vulnerável demais para um período tão longo de 365 dias!

As borbulhas do prosecco subindo, eu pensando no tempo, nas datas, nas viradas que a vida dá em imperdoáveis minutos. Num repente, toda imersa nessa reflexão, sou interrompida por meu marido com “Vamos aproveitar pra já colocar as roupas na máquina? Assim a gente acorda amanhã e já coloca pra secar. A gente coloca junto. Economizamos  tempo!”

Economizar tempo… Eu aqui toda prolixa pensando que tudo acontece tão rápido, ele na ânsia de economizar as horas.

Decido dialogar com o tal químico. “Chronos, meu caro, seja menos mensurável! Será que pode? Eu já tracei, vezes na vida, metas para um ano todo que vira de um segundo para o outro. Talvez o que eu menos queira agora seja me perder de você, mas nem por isso me sinto confortável em lhe servir”.

Volto às borbulhas da taça e desejo que para 2024 eu consiga plagiar na prática a frase de Saramago — “Não tenhamos pressa, mas também não percamos tempo!” Acho que isso me valerá muito.

“A tempo e com tempo”, a contemplativa análise das borbulhas na taça pouco me definiu sobre a calculista passagem cro-no-ló-gi-ca  das coisas, mas serviu para me levar para algum lugar de pensamento que, quem sabe um dia, ainda serei capaz de concretizar… ou não … sei lá!

Passados esses minutos, a roupa na máquina já está centrifugada. Que bom! Sensação boa. Sinto que sobraram-me mais voltas no relógio do dia seguinte para fazer o que bem entender.  E Caetano Veloso, desta vez, interrompe-me de forma mais poética, relembrando a estrofe da canção:

“(…) Compositor de destinos

Tambor de todos os ritmos

Tempo, tempo, tempo, tempo

Entro num acordo contigo: (…)”

Desejo então para o novo ano que o tempo e eu possamos estreitar nossos laços, mas com uma condição:  que  tarde a passar nas horas boas, que me permita degustar com calma e contemplação as chances de estar com uma taça de prosecco nas mãos e que seja exato (nem mais nem menos) quando a vida me trouxer seus percalços. Justo, não?  Tendo feito o acordo, 2024 há de ser um bom ano! Que assim seja para nós todos!

 

COMPARTILHAR

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here