Adeus, Tia Nair!…

O Padre Antonio Vieira, S.J., passa na História da Literatura de língua portuguesa por ter sido um notável orador sacro. E ele teria sido o autor desta máxima singela e, ao mesmo tempo, profunda: — “Frei Exemplo é o melhor pregador.” Se assim é, o exemplo deixado pela Tia Nair, há pouco falecida, é uma pregação importante para todos nós, os seus parentes e amigos que continuamos neste mundo…

Ela nasceu em São João da Boa Vista, e era filha de um imigrante espanhol pobre, aqui chegado no início do século passado. Este imigrante espanhol pobre era, como tantos outros dos seus patrícios, um “trabalhador rural sem terra.” Labutou muito e por fim adquiriu o seu próprio solo. Comprou, com grande esforço, o que passou a possuir. Não invadiu, nem “ocupou” o que era dos outros. Afinal, era um homem de bem…

A Tia Nair cresceu na roça, na propriedade adquirida pelo seu pai. Era uma propriedade localizada na serra, pois os imigrantes espanhóis daquele tempo se dedicavam, em especial, à bataticultura. A atividade era penosa, e exigia dos agricultores uma tenacidade verdadeiramente ibérica… Um dia o seu pai se mudou para a cidade, para o bairro da Pratinha, e ela, ainda bem nova, foi fazer a “Escola Normal.” Foi professora primária durante toda a sua vida, levando no início a dura existência que, naquele tempo, era enfrentada pelas mestras que lecionavam nas escolas rurais. Encarava com seriedade o magistério, tendo contribuído para instruir e educar muitas gerações de sanjoanenses.

Essa senhora, obedecendo à vocação natural das jovens do seu tempo, casou com um rapaz que também era agricultor, como o seu próprio pai. Era um moço de família tradicional, um “quatrocentão”, neto do opulento Estevam Vaz de Lima, porém… pobre no começo da vida. Seu nome era Américo Vaz de Lima, meu tio, padrinho e particular amigo. Era um jovem extraordinariamente ambicioso, nascido para triunfar. Ela o ajudou sobremaneira, ao longo de muitas décadas de exemplar vida conjugal. Ela o ajudou com o seu salário de professora, ela o ajudou administrando o lar e educando os filhos do casal, e o ajudou, ainda, recebendo em sua casa todos os familiares do marido… hospitaleira ao extremo, a todos acolhia  com carinho e consideração.

Nem tudo foram flores, na vida da Tia Nair. Perdeu um filho ainda pequeno, o meu primo Zé Eduardo, de maneira trágica, o que foi para ela um golpe irreparável… mas nunca esmoreceu a sua coragem. Talvez haja uma explicação étnica e cultural para tal coragem: Descendia de espanhóis. E, como disse Miguel de Unamuno, é possível que, na Espanha, não tenha existido Cervantes. Mas que D. Quixote de La Mancha lá existiu, não resta a menor dúvida!… Acrescento a isto a lição de um historiador alemão da Guerra Civil: A alma espanhola oscila entre a tourada e o culto à Virgem Maria!…

Posso dizer que a Tia Nair se realizou integralmente como professora, esposa e mãe. Porém, generosa e hospitaleira, ela estendia a sua grande bondade a todos que a procuravam, sobrinhos, amigos e empregados. Não almejou outros destinos. Jamais foi contaminada pelas imbecis doutrinas atuais de umas tantas feministas mal amadas, que exigem que a mulher seja “empoderada” (êta, neologismo cretino!). Realizou-se plenamente, como mulher, na sua tríplice condição de professora, esposa e mãe. Nada mais desejou. E jamais se sentiu diminuída por isto… afinal, era uma pessoa inteligente.

Pouco antes de falecer, comemorou os noventa anos de idade, em uma concorridíssima festa, a que acorreram familiares e amigos. Tive a felicidade de estar presente com Inês, minha mulher. A Tia Nair foi uma senhora a todos os títulos admirável. E dela posso dizer, evocando o Apóstolo Paulo: “Combateu o bom combate e guardou a fé.”

Acacio Vaz de Lima Filho dedica estes comentários aos seus primos, os descendentes de Dona Anair Tarifa de Lima

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