Sem interrupções e forte como deve ser

Foi numa tarde de sábado, previamente agendada, que adentrei um velho e pequeno sobrado na rua Capitão Bronze. Ele não existe mais, foi posto abaixo para a abertura de uma travessa, destinada ao desafogo do trânsito central.

Fui pesquisar a impressionante coleção de jornais d’ O MUNICIPIO, afim de “pescar” informações sobre o Cemitério de São João da Boa Vista, para o meu trabalho de conclusão do curso de Arquitetura e Urbanismo. O diretor do jornal é quem me atendia nas dúvidas, o saudoso dr. Joaquim Cândido de Oliveira Neto. E os diálogos, as indagações, corriam soltos a cada sábado de pesquisa, justamente na movimentada distribuição do jornal.

Até deu para concentrar-me nas pesquisas, tentado por inúmeras vertentes que o arquivo proporcionava. Dali começou a minha paixão pela história de São João, esmiuçada no cotidiano da primeira metade do século 20. O TGI (Trabalho de Graduação Interdisciplinar) foi um sucesso, ousado e inédito, aclamado pelo meu orientador Carlos Lemos.

Daquela sala improvisada, com insalubre carpete, com as encadernações equilibrando-se em estantes de ferro retorcidas, não podia imaginar que este jornal desse um salto tão grande para uma cidade interiorana.

Fundado em 1906 como jornal do Povo, vinha como uma alternativa de oposição ao jornal mais antigo “Cidade de São João”, dirigida pelo secretário da Câmara Silviano Barbosa. Enquanto “Cidade” cambaleou em sua continuidade, sendo ressuscitado pela Igreja no final dos anos 40, O MUNICIPIO seguiu firme e “quase” forte durante mais de um século, regido pela família Lühmann, passando por alguns grupos e chegando ao casal dr. Joaquim Cândido e Vera Rezende Oliveira.

Embarquei nesta aventura, muito prazerosa, diga-se de passagem, quando tive que retornar às minhas origens. Convidado a escrever um artigo para Finados de 1992, fiquei para fazer aquele trabalho interrompido de pesquisa, agora sobre as casas antigas, urbanas e rurais.

Nesta ocasião, a sede do jornal já estava na rua Irmã Caritas, com uma tiragem estrondosa. Assisti, e acredito que participei, de uma revolução editorial nunca vista em São João. As reuniões de pauta, as pesquisas, os companheiros de redação, de produção, de venda, os diálogos intermitentes com dr. Joaquim, as visitas ilustres, os velhos com suas memórias, as portas que se abriram, a tecnologia da Internet sendo introduzida e atualizada, tudo ao mesmo tempo. Também marcantes foram as entrevistas com o quase centenário Valter Lühmann, das trincheiras para a sobrevivência de um jornal, do compromisso de uma herança familiar e da garantia de um espaço aberto para o Povo, com “P” maiúsculo, como enfatizou seu pai Carlos Lühmann.

Agora vemos o extraordinário número de 10.000 edições, sem interrupções e forte como deve ser. Lamento apenas não poder comemorar com a presença física de dois baluartes da imprensa sanjoanense, Valter Lühmann e dr. Joaquim Cândido.

Mas a festa é de todos, para todos! Parabéns ao jornal O MUNICÍPIO!

Antonio Carlos Rodrigues Lorette é arquiteto urbanista, mestre e doutor em Urbanismo, professor universitário PUC Minas Poços de Caldas, membro e presidente (Biênio 2023-2024) da Academia de Letras de São João da Boa Vista

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