Veterinária e Mudanças

Dia 9 de setembro é o dia do Médico Veterinário, data que celebra um profissional que, no meu entender, pode servir como exemplo na mudança de paradigma no modo de vida da humanidade.

A cadeira de Medicina Veterinária, em toda sua base mundial, tem um olhar bem desenvolvido para a produção de alimentos, seja como engordar mais rápido, como produzir em menor tempo, como otimizar lucros e gerar o produto de origem animal para a humanidade, através do mercado.

Mas a Medicina Veterinária pode ser o início de uma mudança global com relação aos nossos costumes de vida. Ela pode ter um viés maior na área de ecologia, onde o bem estar animal já está presente, porém, se molda ao humano.

Tem de se falar de ecologia das espécies e aplicar aí o conceito de bem estar. Pode, como algumas instituições de ensino mundo afora, dar o exemplo a esse modo consumidor que vivemos, formulando uma nova ementa. Nela podemos “retirado o pé do acelerador” na produção de produtos de origem animal como comodities e, também, direcionar melhor o chamado ‘mercado pet’, retirando as distorções causadas pela humanização e respeitando as funções das raças.

Não é parar de produzir, mas tornar a vida dos animais mais próxima da ecologia da espécie, deixá-la mais livre, sem estímulo exagerado ao crescimento rápido como forma de obtenção de mais lucro. E deixar que os animais possam copular naturalmente, criar, cuidar da prole, ter seu grupo, seu rebanho estabilizado sem neuroses, sem problemas de saúde por estresse, sodomia, mastite, casco podre e tudo que advém do antinatural.

Que na causa animal não se deixem levar ao especismo, mas sim a uma visão aberta onde todos os animais são importantes e interagem entre si. Que o profissional da área seja soberano nas diretrizes com o cuidado dos animais domésticos, que se leve em consideração toda questão racional de sanidade, zoonose, predação e sinantropia, sem deixar de lado a compaixão, mas cuidando para não se levar ao antropomorfismo ou a humanização nociva.

Que nesta profissão, não se acostumem a enxergar o mercado na frente da medicina. Que os princípios no juramento sejam sempre reforçados. Que se entenda: saúde não se vende e não se compra, mas se proporciona com amor, alimentação, profilaxia, equiparidade dos manejos com a vida natural. Que quando um remédio para a cura ou um procedimento ficar além das possibilidades, entender que, ainda falta muito do básico, da assistência básica, dos cuidados mínimos e que, muitas vezes, não se compra ou se paga com muito para ser eficaz.

Enfim, neste dia e nesta profissão, temos a chance de nos voltarmos aos interesses dos bichos, de ter um “gole” de altruísmo entre as espécies (homens para com os animas) e de não precisar nos abastecermos diariamente do sofrimento animal que, se privam de tudo para, literalmente, se doarem de carne e alma. Que tenhamos olhos e coração para enxergar que eles podem, sim, nos servir como alimento, mas não podem suportar a ganância do homem.

Ao novo veterinário que se forma, que venha sem pressa de produzir, que pense no entorno sem se vender ao mercado, que prefira clinicar em prol da saúde, que exerça a Medicina e não o que manda a bolsa de valores e que o profissional tenha compaixão na razão.

Antes de nos respeitarmos uns com os outros e passarmos de um mundo de Homo consumptor para Homo Integralis como conceitua Fe Cortez na sua obra “Homo Integralis, uma nova história possível para humanidade”, temos uma antiga “dívida” para resolver desde o processo de domesticação com os animais.

Devemos mostrar que nosso lado inteligente consegue, hoje, enxergar que, além de nos servir, os animais são exatamente como nós, nos sentimentos da vida. Portanto, a contribuição da classe veterinária na forma de conduzir as criações pode ser o start de uma mudança global, através de uma profissão que deve muito aos animais.

Plínio Aiub é médico veterinário especialista em animais silvestres.

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